O mundo natural antes da fotografia

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Mutum-de-fava (Crax globulosa) – Edward Lear, 1836 – British Museum

Por Márcio Motta, especial para o ECOinforme

Foto: Márcio Motta

Vivemos na era da imagem. Uma pesquisa recente apontou que em 2017 os humanos produziram cerca 1.2 trilhões de fotografias e a tendência desse número é de crescimento nos próximos anos. A fotografia faz parte da cultura contemporânea e através dela criamos nossas principais referências visuais, inclusive do mundo natural. Fotógrafos como Araquém Alcântara, Sebastião Salgado e Luciano Candisani nos ajudam a viajar aos locais mais remotos do mundo sem sairmos de casa. Mas até 200 anos atrás a história era bem diferente.

Antes da invenção da câmera fotográfica, a pintura – incluindo a aquarela – e o desenho eram as formas mais comuns de documentar os fenômenos e eventos. Durante séculos os artistas criaram milhares de obras, registrando a realidade como a observavam. Com a invenção da fotografia, tanto a pintura quanto o desenho se tornaram gradativamente coadjuvantes na missão de registrar o tempo presente e passaram a serem consideradas por muitos uma porta ao passado. Além disso, muitas dessas obras não estavam catalogadas ou disponibilizadas para a sociedade e assim a possibilidade de perda era uma realidade. Dessa necessidade nasceu o projeto Water Colour World, criado para trazê-las de volta à vista.

Idealizado por britânicos e lançado em janeiro de 2019, o projeto é uma base de dados online e gratuita de cerca de 80.000 imagens de aquarelas pintadas antes de 1900. É possível explorar esses registros visuais através de um mapa mundi, buscando imagens por tópicos como por exemplo paisagens, viagens, pessoas, flora e fauna.

O Brasil ainda está pouco representado na iniciativa, com apenas 73 imagens, mas a coleção apresenta pinturas muito interessantes sobre a paisagem natural brasileira no século 19 em Santos e Rio de Janeiro, além da fauna brasileira de grandes vertebrados, como primatas, aves e peixes. Espera-se que o número aumente, seja pela inclusão do próprio projeto ou pelo canal aberto ao público para recebimento de novas pinturas (link para a página que detalha os procedimentos para envio, em inglês).

Baía de Santos – William L. Wyllie, s/d – Royal Museum Greenwich

Outro ponto interessante da coleção é a presença de um dos mais famosos pintores embarcados no HMS Beagle durante parte da segunda viagem (1832-34) do navio, junto com Darwin: Conrad Martens, um dos responsáveis por ilustrar o livro do capitão Robert FitzRoy “As narrativas da viagem do Beagle“. Darwin o considerava um mestre no desenho.

Mutum-de-fava (Crax globulosa) – Edward Lear, 1836 – British Museum

Para conhecer o projeto e visitar o passado pré-fotográfico, acesse http://www.watercolourworld.org.