Títulos Verdes proporcionam lucro no mercado financeiro preservando a natureza. Por Sabrina Pires

Entrou para a História do Brasil e da economia nacional. O rompimento na barragem da Vale, em Brumadinho, Minas Gerais, em 25 de janeiro, foi uma tragédia humanitária e ambiental e bateu um recorde negativo na Bolsa de Valores de São Paulo. Nunca uma ação brasileira tinha caído tanto em apenas um pregão (24%). O prejuízo contabilizado em um dia chegou a 71 bilhões de reais para a companhia de mineração.

Vidas perdidas, dano ambiental – exaustivamente noticiados pela imprensa – não apagam outra discussão: o investidor que era acionista da Vale perdeu dinheiro. Para alguns, pode ter sido apenas uma questão de risco inerente ao jogo. Então, vida que segue. Mas para outros, despertou a discussão: é possível investir no mercado financeiro sem apostar em empresas que estão com lama até o pescoço?

Acreditava-se que a Vale havia aprendido a lição com o rompimento da barragem em Mariana, três anos antes, e estava fazendo a lição de casa para garantir a segurança das pessoas e a preservação do meio ambiente. Fato até aqui: mesmo que tenha seguido a lei – o que também é alvo de investigação – e investido na parte ambiental (como inclusive os registros apontam que a empresa fez)… não foi o suficiente. Falhou.

Mas afinal: é possível lucrar e ao mesmo tempo preservar a natureza? A boa notícia é que sim. Existem os chamados Green Bonds ou Títulos Verdes. Neste caso, o dinheiro do investidor é usado para atividades que comprovadamente trazem benefícios ao meio ambiente. Estão nesta cesta, por exemplo, ativos certificados do setor de energia renovável e saneamento e resíduos.

Lucro com valor ambiental

Até setembro do ano passado, as emissões de títulos verdes por empresas brasileiras somavam R$ 15,6 bilhões, principalmente nos setores de energia eólica e papel e celulose, segundo dados da Sitawi Finanças do Bem, organização social que ajuda empresas a se adaptarem a este perfil. “Negócios considerados verdes têm mostrado lucro importante e crescente nos últimos anos, tanto no Brasil, como no exterior” disse Carla Schuchmann, gerente de finanças sustentáveis da companhia.  E de quebra, há ainda outras vantagens para quem consegue o selo verde. De acordo com levantamento da Sitawi, melhora na reputação da empresa, aumenta o interesse de investidores e carrega o diferencial na composição de preço.

Analistas de mercado entendem que esse é só o começo. Há grande potencial em diferentes áreas que podem fazer muito mais do que cumprir os licenciamentos ambientais obrigatórios, e lucrar justamente por terem uma produção cada vez mais limpa. No guia feito em 2018 Não Perca esse Bond, a Sitawi listou mais de 100 ativos e projetos que podem se enquadrar como títulos verdes em nove grandes setores da economia brasileira: agropecuário, biocombustíveis, elétrico, florestal, imobiliário, industrial, saneamento e resíduos, transportes e financeiro.

Renda fixa verde

Quando o mercado olha para os Green Bonds enxerga títulos de renda fixa. No Brasil, debêntures (empréstimos do investidor para empresa) são os mais comuns. A diferença em relação aos títulos convencionais está no destino do recurso captado. O dinheiro já está comprometido para financiar projetos positivos para o meio ambiente ou em benefício do clima. O certificado depende de uma avaliação externa e independente.

“Os critérios (para certificação) possuem rigorosa base científica e estão em conformidade com a mitigação dos efeitos climáticos, e portanto, com o aquecimento máximo da Terra de 2ºC até 2030 (conforme Acordo de Paris em 2015) ou fornecem claros benefícios de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas”, disse à reportagem do ECOinfome Thatyanne Gasparotto, representante da América Latina do Climate Bonds Initiative, organização internacional sem fins lucrativos que trabalha em soluções para o mercado em questões do clima. Ou seja, não basta dizer que o dinheiro vai para despoluir água ou para veículos elétricos. É preciso mostrar documentação, de forma transparente, que prove o compromisso. Quem não cumprir, fica sujeito a perder o selo verde, sofrer impacto na imagem e reputação, e se estiver em contrato, a penas previstas.

O Banco Central (Cetip e BM&Fbovespa), recomenda que, além das informações usualmente apresentadas, seja feita a indicação do título como verde no sistema.

Ainda é um mercado novo. A primeira emissão de títulos verdes foi realizada pelo Banco Europeu de Investimento em 2007. Desde então, o mercado expandiu: tem emissores como bancos comerciais e empresas em mais de 25 moedas e dezenas de países. Por enquanto, papeis mais à mão de grandes investidores. Leilões de energia ou de carbono, por exemplo, estão fora do alcance do pequeno investidor. E tem a ver mais com o acordo antipoluição mundial e as metas a serem cumpridas por parte de quem ainda produz com excesso de gás carbônico.

”Apesar de que, já vemos, também, o surgimento do interesse de investidores de varejo em alguns mercados internacionais, por exemplo, no mercado asiático”, diz Thatyanne, que acaba de participar da Conferência Anual sobre o tema, em Londres, no Reino Unido, no início de março. O encontro de três dias reuniu uma turma entusiasmada – governos e empresas ao redor do mundo – que fala em investimentos da ordem não mais de bilhões, e sim de trilhões de dólares.

No mercado nacional, ainda pouco se conhece do mercado de baixo carbono entre os pequenos investidores. Por enquanto, quem realmente quiser aplicar dinheiro em iniciativas com selo verde vai precisar perguntar, pesquisar, e às vezes, insistir.

Segundo o guia da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) (https://portal.febraban.org.br/pagina/3188/52/pt-br/guia-titulos-verdes), é possível encontrar títulos verdes nos seguintes papeis:

– Cotas de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC)

– Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA)
- Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI)

– Debêntures

– Debêntures incentivadas de infraestrutura

– Letras Financeiras
- Notas Promissórias

Mas é mercado financeiro igual aos demais: com risco, lucro e tudo o mais. As aplicações em títulos verdes, em geral, apresentam retorno financeiro e preços definidos pelo mercado, assim como ocorrem para os títulos convencionais. Só que carregam o selo de respeito à natureza.

“(São aplicações que) permitem investimentos diretos para esverdear os setores marrons da economia”, disse Thatyanne, lembrado que o Brasil é um dos principais países do mundo que possui o potencial de atender à demanda mundial por títulos verdes.