Redes de pesca que enroscam nos animais e lixo no mar estão entre causas de óbitos mais frequentes

Por: Sabrina Pires

O mês de agosto começou com cenas repetidas de baleias-jubartes mortas no litoral paulista. Duas, inclusive, no mesmo dia, na quinta (05/08/21). Moradores de Santos e Guarujá encontraram os animais nas praias.

O aparecimento de baleias muitas vezes já em decomposição na costa brasileira chama a atenção dos pesquisadores. Até julho deste ano, só no Estado de São Paulo foram 21. No país, 90. Os dados são do Instituto Baleia Jubarte. Este é o maior número registrado nos primeiros sete meses de um ano desde 2015, início das medições.

Nesses seis anos, os pesquisadores também apontam para o aumento da população em águas brasileiras. Entre abril e setembro é comum a migração da espécie que foge do frio das regiões polares e vem para a nossa costa se reproduzir.

“Estudos estimam que a população brasileira de baleia-jubarte original continha cerca de 30 mil baleias, quando a caça foi proibida no Brasil, em 1987, era menos de 1000 baleias. Ao longo desses 34 anos de proteção, essa população está se recuperando e hoje estima-se que cerca de 20 mil baleias estão frequentando antigas áreas de ocupação, como a região de Ilhabela e São Sebastião”, diz Mia Morete, bióloga do VIVA Instituto Verde Azul ao E aí, bicho?.

O QUE MATA? – Elas morrem mais por que estão em maior número ou por que, de fato, há ameaças? Para saber a causa da morte de uma baleia é preciso realizar uma necropsia.

Mas os cientistas já listaram as principais ameaças atuais. Entre as mais comuns estão:

– captura acidental,

– sobrepesca,

– interação com lixo,

– poluição química e sonora,

– turismo desordenado e

– consequências das alterações climáticas.

É possível determinar o motivo da morte sem investigações mais detalhadas em laboratório quando há marcas externas evidentes de atropelamento ou emalhamento (captura acidental em redes de pesca), quando as redes e petrechos ficam grudados ao corpo do animal.

QUESTÃO INTERNACIONAL – Não são apenas baleias que sofrem com o “bycatch” (termo em inglês para captura acidental). Essa é uma grande ameaça aos mamíferos aquáticos no mundo. Segundo a Comissão Internacional Baleeira, 300 mil baleias e golfinhos morrem anualmente com interações com petrechos de pesca.

Outro aspecto destacado pelos pesquisadores sobre a morte das baleias no Brasil tem a ver com a idade dos animais mortos – a maioria jovens. “Os filhotes de jubarte ficam com suas mães por cerca de 1 ano, quando já ocorre o desmame e aparentemente precisam se virar sozinhos”, explica Mia.

SOLUÇÃO – Ambientalistas e pesquisadores pedem ações coordenadas para evitar a morte dos animais nas interações com humanos. Pedem mais fiscalização, por exemplo, com redes de espera que são deixadas em locais proibidos e que capturam todo tipo de animal marinho – a maior parte não é alvo da pesca. “Redes de espera assistidas já existem aqui em Ilhabela. O pescador fica ali junto, se algum animal se aproxima, ele tem como resolver a situação de forma imediata”, afirma Marina Leite, bióloga do VIVA Instituto Verde Azul. E o poder público também tem como participar além da fiscalização. “Estamos discutindo algumas saídas: será que pensar em época de defeso, alguns meses que tem ocorrência maior de baleia-jubarte, esses pescadores poderiam não pescar e receber algum recurso do governo para viver?”, questiona ela.

Outra medida é a ampliação da área de proteção:  “sugerimos que se aumente a região descrita como área reprodutiva de baleia-jubarte no litoral brasileiro como o litoral norte de São Paulo”, afirma Mia. O VIVA Instituto Verde Azul iniciou em 2019 estudo a partir de um ponto fixo em Ilhabela para pesquisar o comportamento das jubartes no local. “Foi uma enorme surpresa a quantidade de baleias observadas e constatar que elas passavam muito próximas a costeira!  E além das jubartes, observamos outras 10 espécies de cetáceos na região, esse número é fantástico, já que no mundo inteiro são registradas 90 espécies!”, conclui ela.

Crédito: Sabrina Pires / E aí, bicho