Por *Márcio Motta

Em tempos de estereótipos, reconhecer corais como animais é tarefa complicada para muitos seres humanos. Mas o fato é que esses organismos são animais e pertencem a uns dos filos mais antigos ainda viventes, denominado Cnidaria, parentes próximos das águas-vivas e das anêmonas-do-mar.

Antigo aqui não significa simples, pois tanto as estruturas quanto as relações que as diversas espécies desenvolveram com outras são impressionantes, principalmente a simbiose (indivíduos de espécies diferentes dependem um do outro e ambos se beneficiam com essa relação) com as microalgas zooxantelas. Estas algas vivem nos tecidos dos corais e são responsáveis pela coloração dos mesmos. Além da cor, ao realizarem a fotossíntese entregam açúcares e outros compostos orgânicos aos corais, auxiliando-os no aumento da taxa de absorção dos itens indispensáveis para sua estrutura corpórea: os íons de cálcio e carbonato, que combinados formam o carbonato de cálcio (CaCO3). Em contrapartida, os corais oferecem um substrato-abrigo para as algas. Essa relação simbiótica ocorre sob determinadas condições dos fatores abióticos como temperatura, luminosidade, salinidade e sedimentação, para citar alguns. Mas o que acontece quando o nível de um fator (ou mais de um) sofre alteração? Neste caso, a relação simbiótica pode entrar em colapso e passar a não ser vantajosa para uma ou ambas espécies. Com temperaturas acima de 28ºC é possível que as microalgas abandonem os corais ou simplesmente seus pigmentos (cores) fotossintetizantes sejam destruídos, ocasionando a perda da cor “natural” do coral tornando-o esbranquiçado, deixando seu esqueleto de carbonato de cálcio à vista.

É importante ressaltar que oscilações na temperatura são naturais e já ocorreram diversas vezes na história das comunidades recifais. A preocupação dos pesquisadores é com a frequência, duração, quantidade de corais afetados e o acúmulo com outros fatores de estresse ambiental — como sobrepesca, poluição e proliferação de algas —, que reduzem a capacidade dos corais de sobreviver ao branqueamento. Se o fenômeno ocorrer durante determinado período de tempo pode ocasionar a morte do coral, embora a recolonização das microalgas seja possível.

Eventos desta natureza são relatados no Brasil desde os anos 80, sendo que o monitoramento científico acompanhou os eventos em 1999, 2010, 2014 e 2016 (associados à ocorrência do El Niño). Já no início de 2019 o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste (CEPENE) e o Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) – instituições responsáveis pelo monitoramento dos corais no Brasil através do programa Reef Check Brasil – receberam relatos de branqueamentos no extremo sul da Bahia. No Arquipélago de Abrolhos (BA) os alertas emitidos pelo órgão estadunidense de pesquisa atmosférica e oceânica NOAA mostraram a região com o nível mais crítico de alerta (fig.1 e 2).

Figura 1. Mapa do Coral Reef Watch (NOAA) de 17/03/2019 – Fonte: NOAA

Figura 2. Gráfico mostrando a relação entre elevação das temperaturas e os alertas entre 2018 e 2019 – Fonte: NOAA

A equipe composta por membros do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (PARNA) e CEPENE foi a campo no início de fevereiro para observar os corais e verificou a ocorrência do branqueamento em algumas espécies, como Mussismilia braziliensis (coral-cérebro, fig.3) e Millepora alcicornis (coral-fogo, fig.4), sendo esta última a mais afetada.

Figura 3. Mussismilia braziliensis esbranquiçado em Abrolhos – Fotografia de Maria Bernadete Silva Barbosa, monitora ambiental do PARNA Abrolhos, 2019.

Figura 4. Millepora alcicornis esbranquiçado em Abrolhos- Fotografia de Maria Bernadete Silva Barbosa, 2019.

De acordo com Lucas Cabral Ferreira, membro do programa de pesquisa e monitoramento do parque, o branqueamento não atinge todos os indivíduos, mas a situação é de atenção (uma pesquisa recentemente publicada na revista Coral Reefs e realizada na região estudou o mesmo fenômeno entre 2014 e 2016, indicando na época uma mortalidade de 3%.). Ele afirma que a equipe tem realizado o monitoramento seguindo os protocolos específicos de avaliação do branqueamento (Reef Check), bem como o acompanhamento semanal das colônias através de fotografias. O pesquisador ainda considera que a tendência é que as temperaturas diminuam, mas o problema é saber quando isso ocorrerá e os impactos naquela comunidade, embora historicamente os corais de Abrolhos aparentem resistência ao aquecimento. A pergunta que fica é: até quando resistirão? Os corais-de-fogo são os únicos corais ramificados do Atlântico Sul, e por isso atendem a uma demanda ecológica essencial nos recifes de Abrolhos, servindo de refúgio para peixes jovens e outros pequenos organismos que precisam se esconder de predadores. Uma vez mortos pelo branqueamento, eles são rapidamente cobertos por algas e perdem essa função.

Para o chefe do PARNA Abrolhos, Fernando Repinaldo Filho, o branqueamento traz um alerta e nos convida à reflexão sobre o impacto das mudanças climáticas sobre as nossas vidas: “Quando vemos um coral branqueado, mais do que apenas um problema com o recife de coral em si, estamos falando de um problema sobre um dos ecossistemas mais ameaçados do mundo”. Os corais são a base biológica de todo o ecossistema recifal. Sua morte transforma o recife num bloco mineral que deixa de promover os serviços biológicos essenciais para o ecossistema marinha, impactando toda a teia alimentar e levando inevitavelmente à diminuição da biodiversidade. Utilizando uma comparação feita pelos próprios pesquisadores, “é como se uma floresta tropical se transformasse num terreno baldio”. Eles ainda afirmam que o rompimento desse equilíbrio normalmente representa o início de uma sequência de danos ao meio ambiente, com reflexos também na questão sócio-econômica relacionada às comunidades locais, pesca artesanal e o turismo, que utiliza o mergulho em recifes como opção nas viagens ao litoral brasileiro.

“Quando vemos um coral branqueado, mais do que apenas um problema com o recife de coral em si, estamos falando de um problema sobre um dos ecossistemas mais ameaçados do mundo.”

Sendo assim, fica claro que a conservação dos oceanos e da biodiversidade que ele abriga é prioridade, não exclusiva dos cientistas e conservacionistas. O cidadão pode colaborar com registros e informações através do projeto de Ciência Cidadã “De olho nos Corais” (realização do Laboratório de Ecologia Marinha da UFRN e tem o apoio do Instituto Serrapilheira, fig.5), onde a participação é possível por meio de fotografias e hashtag #DeOlhoNosCorais que são monitoradas pelos pesquisadores que utilizam as imagens para complementar seus estudos.

Figura 5. Página no Facebook do projeto “De olho no Corais”. Fonte: Reprodução Facebook: @DeOlhoNosCorais

Chegamos assim no ponto de convergência, onde a participação de todos os atores sociais é fundamental para que estratégias de conservação possam efetivamente produzir o impacto positivo esperado. Mesmo que nesse caso a provável causa não seja diretamente humana, podemos ajudar na solução.

*Marcio Motta é biólogo e colaborador do Portal ECOinforme

Esse texto foi construído em parceria com a bióloga do VIVA, Baleias, Golfinhos e cia  e colaboradora do Portal ECOinforme, Marina Leite Marques, que desenvolve uma série de projetos ambientais, inclusive em Abrolhos. Conheça o trabalho desenvolvido por ela e pelo VIVA clicando aqui.