Uma produção ecologicamente suportável e socialmente justa

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– Doutor em economia ecologia, o pesquisador João A. Mangabeira propõe a adoção da Economia Ecológica para conter a depredação dos recursos naturais

A corrente de pensamento econômico predominante na atualidade, que mantém uma frágil relação sustentável com a natureza, é denominada Economia Ambiental (Neoclássica). Esta corrente preconiza que existe a possibilidade de crescimento ilimitado da agricultura convencional ou “moderna”, e que os impactos ambientais e a produtividade agrícola, decorrentes deste tipo de agricultura, podem ser solucionados pelo progresso técnico. Até o presente momento, no entanto, este tipo de agricultura vem apresentado sérios problemas de impactos ambientais.

Por outro lado, existe uma corrente minoritária de pensamento econômico, contrária à neoclássica, denominada Economia Ecológica. Esta corrente relaciona-se de modo fortemente sustentável com a natureza, por intermédio do enfoque agroecológico, preconizando uma produção agrícola alternativa que não causa impactos ambientais e propiciando a manutenção da produtividade de forma sustentável ao longo do tempo.

E como funciona esse sistema de produção alternativo e sustentável dentro dos princípios agroecológicos? A Agroecologia não se confunde com uma forma ou estilo de particular de produção da agricultura, qualquer que seja a sua denominação, mas propõe um conjunto de princípios e de metodologias participativas que apóiam o processo de transição da agricultura convencional para estilos de agricultura de base ecológica. A aplicação desses princípios envolve várias dimensões: ambiental, social, econômica, cultural, política e ética. Também a Agroecologia é a ciência ou a disciplina científica que apresenta uma série de princípios, conceitos e metodologias para estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas, com o propósito de permitir a implantação e o desenvolvimento de estilos de agricultura com maiores níveis de sustentabilidade. Ou seja, a Agroecologia proporciona as bases científicas para apoiar o processo de transição para uma agricultura “sustentável” nas suas diversas manifestações e/ou denominações.

Existem diversas linhas de agricultura alternativa, conhecidas há mais de 50 anos, que aplicam parcial ou totalmente os princípios agroecológicos, tais como: Biodinâmica, Ecológica, Natural, Orgânica, Permacultura, entre outras. De modo geral, estas linhas alternativas usam algumas características básicas deste novo padrão de agricultura sustentável, com enfoque agroecológico, que são: (a) a recuperação e preservação dos recursos naturais, como solo, a água e a biodiversidade; (b) a diversificação de culturas; (c) a rotação de culturas e a integração da produção animal e vegetal; (d) o aproveitamento dos processos biológicos; (e) a economia dos insumos; (f) o cuidado com a saúde dos agricultores e a produção de alimentos com elevada qualidade nutritiva e em quantidades suficientes para atender à demanda global.

Além dos aspectos produtivistas, outras contribuições à formulação do paradigma Agroecológico vêm sendo recolhidas da Economia Ecológica que, a partir da crítica à economia convencional, propõe uma revisão profunda em conceitos-chave da agricultura moderna, como rentabilidade ou produtividade física por unidade de área ou de mão-de-obra, sugerindo, por exemplo, que a sustentabilidade dos sistemas agrícolas deve ter em conta tanto as externalidades (impactos negativos) como os balanços energéticos da produção agrícola. A Economia Ecológica contribui também para a Agroecologia quando incorpora em suas análises as Leis da Termodinâmica, para provar que sob o ponto de vista energético, a agricultura convencional apresenta menor produtividade que a agricultura de base ecológica sendo, pois, insustentável no médio e longo prazo.

Para a Economia Ecológica, a insustentabilidade de agricultura dita “moderna” expressa-se pela obtenção de resultados econômicos favoráveis à custa da depredação dos recursos naturais, o que põe em evidência a fraca relação entre a dimensão econômica e a dimensão ecológica.

A Agroecologia é considerada uma disciplina cientifica que transcende os limites da própria ciência ao pretender incorporar questões não tratadas pela ciência clássica (relações sociais de produção, equidade, segurança alimentar, qualidade de vida, sustentabilidade). Ao mesmo tempo, configura-se dentro dos referenciais teóricos da Economia Ecológica, incorporando o meio ambiente em suas variáveis produtivas e valorizando os serviços ecossistêmicos prestados pela natureza.

Portanto, cabe a todos os atores da sociedade e do governo assimilar a noção de que a transição para uma agricultura sustentável passa pela Agroecologia, sob a perspectiva da Economia Ecológica. Ou seja, trata-se de buscar um padrão de desenvolvimento ecologicamente suportável e socialmente justo, que siga também os parâmetros da eficiência econômica.

SUGESTÕES DE LITERATURA SOBRE O TEMA

ALTIERI, M. Agroecologia: A dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 3 ed.

CAPORAL, F. R.; COSTABEBER, J. A.; Agroecologia e Extensão Rural: contribuição para promoção do desenvolvimento rural sustentável. Brasília: MDA/SAF/DATER-IICA, 2004.

GLIESSMAN, S. R. Agroecologia: processos ecológicos em agricultura sustentável. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2001. 652 p.

MANGABEIRA, J. A. de C.; ROMEIRO, A. R. Agroecologia na perspectiva da Economia Ecológica: contribuições para a promoção do Desenvolvimento Rural Sustentável. ANAIS – VIl Encontro da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica”. Fortaleza, 28 a 30 de novembro de 2007.

SEVILLA GUZMÁN, E, El marco teórico de la agroecologia. In. Materiales de Trabajo del Ciclo de Cursos y Seminarios sobre Agroecologia y Desarrollo em América Latina y Europa. Modolo I- Agroecologia y Conocimento Local (La Rábida, 16 a 20 de enero de 1995). Huelva, La Rábina: Universidad Internacional de Andalucia, 1995.