Ribeirinhos da Amazônia trocam o peixe fresco por enlatados

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– Estudos indicam que dieta do brasileiro é cada vez mais padronizada

enlatados

A dieta de comunidades ribeirinhas na Amazônia brasileira, que antes era composta principalmente por alimentos produzidos localmente, como peixe com farinha de mandioca, passou a ser integrada por alimentos industrializados, como enlatados e frangos congelados produzidos nas regiões Sul e Sudeste do país, conforme reportagem de Elton Alisson, da Agência Fapesp.

A constatação foi feita por pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq) da USP e das Universidades de Brasília (UnB), Federal do Acre (UFAC) e do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em estudos com apoio da Fapesp,

O levantamento mostrou que o padrão alimentar de populações situadas em locais isolados na Amazônia, no Nordeste e no Centro-Oeste do Brasil e também de pescadores no litoral norte de São Paulo está cada vez mais semelhante ao de moradores de regiões urbanas

“O resultado do estudo indica uma homogeneização do padrão alimentar no Brasil”, disse Gabriela Bielefeld Nardoto, professora da UnB e uma das autoras do trabalho. “Apesar do isolamento, as populações rurais de várias regiões do Brasil têm aderido cada vez mais à ‘dieta de supermercado’, composta por alimentos processados e ultra processados”, afirmou.

Os pesquisadores compararam os padrões alimentares de populações urbanas de Manaus e Tefé, no Amazonas, com comunidades situadas ao longo do rio Solimões, cuja principal fonte de proteína era o pescado, além dos padrões alimentares em comunidades de caiçaras na região de Ubatuba.

A constatação é de que essas populações aderiram totalmente à dieta de supermercado. Pescadores usam parte do dinheiro que conseguem com a venda do pescado para comprar frango congelado no centro de Ubatuba.

Já entre os moradores das regiões rurais da Amazônia, os pesquisadores observaram que há um vínculo mais forte com os alimentos produzidos regionalmente. No entanto, notaram uma perda da identidade alimentar dessas populações e a penetração de alimentos industrializados, como frango congelado, bolachas, embutidos e refrigerantes, em suas dietas.

A hipótese era a de que as comunidades mais afastadas dos centros urbanos estariam mantendo a dieta do peixe com farinha. Mas isso não foi constatado. Eles acabaram preservando consciente ou inconscientemente esse hábito no almoço. Já no jantar e no café da manhã passaram a consumir mais alimentos processados e ultra processados.

O estudo revelou que a dieta do brasileiro, que até então era baseada em alimentos oriundos de plantas do tipo fotossintético C3, como o arroz e o feijão, tem se tornado cada vez mais composta por alimentos originados de plantas C4, como o milho e a soja, presentes na ração de diversos animais, além da cana-de-açúcar, que não fazem mal à saúde, mas como são processados, têm alto teor de gordura, sal e açúcar e contribuam para o aumento da incidência de obesidade e de doenças cardiovasculares.

Entre outras conclusões, a pesquisa revela que:

“À medida que essas comunidades perdem sua identidade alimentar, também acabam perdendo sua relação com a paisagem local. Se não precisam mais do peixe para se alimentar, o rio deixa de ser uma fonte alimentar e passa a ser somente um meio de transporte”.