Quanto vale uma espécie?

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Foto: Rafael Munhoz

Por Marcio Motta

Essa talvez seja uma das perguntas mais complexas para se responder, e possivelmente não exista uma resposta precisa. O processo de especiação – a formação de uma nova espécie – depende de inúmeros fatores, como os químico-físicos (temperatura, luz, umidade, etc.), biológicos (espécies competidoras, presas, predadoras, invasoras…), climáticos ou geológicos (terremotos, deriva continental). Isso sem falar nos eventos que podem chegar sem aviso do espaço, como aconteceu há 65 milhões de anos e produziu um dos maiores eventos de extinção do planeta.

Foi graça a esse meteoro que a chamada Era dos Dinossauros deu lugar ao tempo que vivemos hoje: a Era dos Mamíferos, na qual somos atualmente a espécie mais significativa e impactante. Todos esses fatores podem atuar de forma independente ou se potencializar quando ocorrem juntos. São essas complexas interações ou a ausência delas que impedem precisar o tempo do processo de formação de novas espécies.

Sabemos que eventos como o citado acima são momentos onde acontecem grandes mudanças na vida do planeta. Muitas espécies não suportam a mudança e são extintas, outras iniciam um processo de adaptação e alguns indivíduos podem sobreviver. Se a mudança ao longo do tempo produzir seres que não conseguem mais reproduzir entre si, estes são considerados de espécies diferentes. Esses eventos ocorreram diversas vezes na Terra, e certamente ocorrerão novamente durante os cinco bilhões de anos que restam ao planeta (*).

Na última Era Glacial, há cerca de 12 mil anos, grande parte do Brasil foi afetada pela diminuição da temperatura global. Alguns locais foram menos afetados, como a Amazônia, Mata Atlântica e Pantanal, regiões onde muitas espécies encontraram abrigo durante os longos anos de baixa temperatura. Aquele foi um momento onde houve grandes mudanças na fauna do Brasil, e consequentemente esses locais mantiveram sua alta sua diversidade, legado que persiste até hoje mesmo com a pressão do homem.

O Pantanal é o lar de uma das aves mais incríveis do mundo: a arara-azul. Se prestarmos atenção nos detalhes do corpo dessa espécie – seu bico especializado em quebrar materiais resistentes, as cores pigmentadas de suas penas, a aerodinâmica do seu corpo e seu complexo comportamento social, teremos a noção que foram necessárias milhares ou quem sabe milhões de gerações (anos) de adaptação e seleção natural para formar a espécie como a admiramos hoje. Cada indivíduo carrega a sua riqueza em suas células – o DNA, o código único de cada indivíduo – e sabendo disso é que podemos entender o trabalho incansável de conservacionistas como a Neiva, que há mais de 20 anos estuda e busca proteger essa riqueza individual e intransferível dos indivíduos de vida livre que voam pelos céus do Pantanal. A luta é contra o tempo, pois as populações declinam a cada dia na natureza em troca de um valor incompatível com todo o caminho evolutivo que essa e todas as demais espécies já percorreram até aqui.

A perda de uma espécie é algo irreparável do ponto de vista biológico, pois essa sequência de genes possivelmente não existirá em outras espécies. Essas sequências podem ser a chave para combater doenças ou resolver algum problema (ponto de vista utilitarista do DNA).

Do ponto de vista ecológico, parte-se do pressuposto que todas as espécies possuem relações com as demais que vivem em seu ambiente, numa espécie de teia ecológica. Quando uma é extinta toda a teia entra em desequilíbrio, o que pode acarretar aumento ou diminuição de populações de diferentes espécies, incluindo nós seres humanos.

 

(*) A questão dos cinco bilhões de anos está relacionada com o Sol.

É sabido que essa estrela também tem um ciclo de vida, devido às explosões de Hidrogênio que a compõe, e sabemos essa idade devido à cor da estrela. Estrelas amarelo-alaranjadas possuem meia-vida. Sendo assim, como o Sol possui aproximadamente cinco bilhões de anos, resta a outra metade tanto para ele quanto para o Sistema Solar.