Os mistérios da Gran Savana

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– Uma aventura nas terras dos macuxis, digo, do deputado Romero Jucá, no Norte de Roraima

– Avançamos a fronteira dos brancos e revelamos a magia da região do Monte Roraima e a cultura dos macuxis na Venezuela

As fronteiras demarcadas pelo invasor não consideraram as semelhanças regionais e muito menos os habitantes do lugar. Quem ficou do lado de lá virou venezuelano, quem ficou pra cá, brasileiro.

A população indígena poderia ser a luz da construção da Pátria Grande, sonhada por Simon Bolívar, El Libetador, que ousou lutar por uma América do Sul unida, uma nação libertária, solidária, revolucionária.

Mas os europeus trataram de dizimar as raízes de cultura autóctone, os soldados de Cristo destruíram os deuses criados pelos indígenas há milhares de anos e impuseram o catolicismo como instrumento para devastar a cultura local. Não, os culpados não foram somente os que iniciaram a destruição da América no século XVI. Os descendentes de Chistóvan Colombo continuam agredindo a Nuestra América, fisicamente explorando as minas de diamantes em benefício da família Jucá e culturalmente dando o nome cristão de São Marcos à reserva indígena do Norte de Roraima. Entre outras agressões.

Davi Kopenawa, pajé ianomâmi, etnia que também habita o norte de Roraima, denunciou ameaças de morte e a invasão de fazendeiros e garimpeiros na terra indígenas. Acusou o senador Romero Jucá (PMDB-RR) de incentivar a prática de garimpo ilegal. Jucá também foi acusado de receber propina para permitir a ação de madeireiros em terras indígenas. É de sua autoria projeto de lei que regulariza a mineração em terras indígenas, atividade de alto impacto ambiental.

Os 200 km da longa rodovia 174 que liga Rio Branco à fronteira com a Venezuela são de uma aridez interminável. Ao longo da estrada, ocas, casebres e raros pontos de paragem indicam que há vida.

O Estado brasileiro está presente, tem escolas e um comércio singelo, mas a cultura indígena foi para o espaço. Jacira tem um pequeno comércio à beira da estrada, onde atende os raros visitantes. O barzinho tem até banheiro com água encanada, um pequeno cubículo distante 50 metros da casa. A filha, de nove anos, está aprendendo macuxi, a língua da tribo local. Pronunciou orgulhosa um “bom dia” na língua indígena. Mas a mãe revelou: os índios têm vergonha de falar a própria língua; preferem o português.

Os macuxis são uma etnia pertencente à família linguística caribe, vivem na região que vai das cabeceiras do Rio Branco, no Brasil, a Rupunuri, na Guiana. Os indicadores da população macuxi são desencontrados, mas sugerem entre 12 e 20 mil indivíduos.

Os indígenas vêm enfrentando ocupações de brancos, pelo avanço das frentes extrativistas e pecuaristas, e ações de garimpeiros e grileiros. Alguns macuxis resistem: José tem uma banca num outro ponto da rodovia, onde oferece farinha d’água e banana da terra. Ele mesmo cuida da roça de mandioca, ralada e seca ao sol se transforma na farinha com grãos grandes e duros, alimento usado no dia a dia para acompanhar qualquer prato e ingrediente principal da paçoca.

Vinte quilômetros adiante o viajante se depara com uma casa de carnes. “Tá fresquinha. Matamos o boi hoje de manhã”. Pendurados para todo mundo ver, pedaços enormes do gado expostos ao tempo são vendidos por quilo, com cortes aleatórios, diferentes dos formatos encontrados nos açougues da cidade.

A paçoca é o alimento mais elaborado: farinha d’água socada no pilão com carne seca. Muito saborosa!

A estrada segue. Rumo a Pacaraima, na divisa com a Venezuela, onde Eliana Ferreira Martins, companheira de viagem, dedicou meses de trabalho ao lado de Beth e Maristela Castellari. A visita à Grand Savana, na verdade, foi o coroamento desse longo período onde a equipe comandada por Rose Coimbra e Pedro Carlos desenvolveu um trabalhão quase antropológico para conhecer o pensamento desses brasileiros que vivem tão distante dos centros de decisão do País.

Além da fronteira dos brancos está Santa Elena de Uairén, cidade grande para os padrões locais com seus 30 mil habitantes e porta de entrada da Gran Savana, nome que indica um bioma parecido com o cerrado brasileiro: vegetação rasteira, espaçada, árvores retorcidas, revelando a pobreza do solo.

Simpática, acolhedora, tranquila, Santa Elena de Uairén recebe grande influência de brasileiros que cruzam a fronteira para abastecer o carro com a gasolina venezuelana, vendida para os cidadãos locais por R$ 0,02 o litro. Isso mesmo: você enche o tanque com duas moedas. O governo do país proíbe que carros estrangeiros abasteçam, mas no câmbio negro é possível comprar o combustível por R$ 1,00 o litro, estocado em galões nos quintais das casas.

O câmbio é favorável aos brasileiros: um bom almoço custa menos de R$ 6,00; estadia no melhor hotel da cidade, com café da manhã, cerveja, vinho e mesa farta não sai por mais de R$ 40,00.

Mesmo com grande movimento de carros e pedestres, o centro da cidade não tem nenhum sinal de trânsito. Não há semáforos, nem sinalização de “pare” ou outra qualquer, mas o trânsito é de uma invejável harmonia. Os carros param no cruzamento mesmo que esteja na via supostamente preferencial (uma rua mais larga ou avenida). Não há estresse, nem buzina na sua orelha; um dá passagem para o outro.

A Gran Savana oferece passeios indescritíveis. A região do Monte Roraima é pobre em terra fértil, mas rica em água, formando cachoeiras e piscinas naturais que aplacam o calor dos aventureiros.

Chuvas que ainda hoje atingem o local durante dez dos doze meses do ano, formam um grande aquífero, mas também destroem a terra, causando uma devastação que gerou um solo árido, onde nada nasce, nada se planta, nada se colhe. A formação geológica da Gran Savana é resultado de uma erosão que remonta a 1,8 bilhões de anos. Só o Monte Roraima resistiu, no alto dos seus 2.860 metros. Todo o resto sucumbiu: a planície, árida, está agora a 860 metros de altitude, onde só restam gramíneas com folhas grossas que não servem de alimento nem para os roedores e répteis mais resistentes.

“Mas a mãe de todas as gramas do mundo está aqui”, revela o guia venezuelano Junne de Freitas, “resistindo bravamente às dificuldades do lugar”. Ele se refere à Bulbostylis, espécie da qual se originaram grande parte das gramíneas. As raízes superficiais se alimentam do pouco material orgânico disponível na superfície, uma vez que é quase impossível absorver ingredientes desse solo ácido, com alta concentração de alumínio, pobre em nutrientes, o que limita a atividade dos microorganismos e praticamente elimina a possibilidade de vida animal.

Uma rara área de vegetação alta esconde a fascinante cachoeira Jaspe. São os bosques, de área bastante limitadas, onde a mata é viçosa e fauna é rica, com inúmeras espécies de microorganismos e formigas.

Ali, o Junne revelou alguns segredos que aprendeu com os índios, como a seiva de uma árvore usada na produção de incenso com acentuado perfume de menta de que serve também para proteger feridas no corpo. Revelou que o urucum é usado pelos indígenas como repelente de insetos. O pó vermelho (com o qual também se produz o coloral) afasta o puri puri, um minúsculo mosquito, parente do borrachudo, que ataca em bando os que – como a nossa companheira Sonia Lucia – duvidam do seu poder de fogo: ela não usou nem urucum, nem o Off, da Johnson: terá o puri puri como eterna lembrança da Gran Savana.

Mas os bosques estão ameaçados pelo fogo. Junne conta os incêndios que ocorrem regularmente atuam como um fator acelerador do processo de degradação dos bosques da Gran Savana.

Se o ambiente é inóspito, a paisagem é bela. Você avista de longe a área indígena Raposa Terra do Sol. Você sente o poder da natureza. O Monte Roraima, que ganhou recente notoriedade como palco na novela das 9, marca a tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e República da Guiana. Místico, desafiador e misterioso, atrai a atenção de estudiosos e aventureiros, que encontram nele uma atmosfera fascinante, mágica, levando centenas de turistas a enfrentar uma longa caminhada até o cume, aventura que leva de seis a dez dias.

Comprado diretamente dos guias em Santa Elena de Uiarén, o pacote de sete dias, com carregadores, barraca, comida feita na hora, não sai por mais de R$ 700,00. O passeio pode ser comprado em Boa Vista (mais caro) e São Paulo (mais caro ainda).

A cachoeira Jaspe, ainda na planície, mas já em terras venezuelanas, impressiona pela beleza de suas pedras vítreas que, pelo alto grau de dureza (oito. O grau de dureza do diamante é 10) se quebram em bloco fazendo desenhos com riscos em linha reta e confrontando a lógica de que a natureza só tem linhas curvas.

Após o impacto das águas geladas das cachoeiras da Gran Savana, nada melhor do que um almoço na aldeia dos Kumarakapay, uma comida frugal: costela de boi, frango assado, sem grandes emoções. O que salvou foi o saboroso molho de pimenta feito com maxaco culon (a nossa formiga saúva) e termita (o nosso cupim de madeira) e mandioca brava (a venenosa). Acredite: é muito bom.

A akiauî, como os indígenas chamam a saúva, é elemento importante na cultura macuxi. Na culinária, além do molho de pimenta, ela acompanha carne de vaca e peixe. A formiga é assada no forno ou sobre uma peneira ao fogo, para queimar as asas. O ritual só pode ser feito pelos mais velhos. Segundo a lenda indígena, o jovem poderia contrair doença grave se o fizesse.

Comer akiauî dá maior longevidade e uma vida saudável. Mas a saúva tem uma importância cultural que vai além da mesa. Ela faz parte do ritual de passagem do jovem índio. Levar ferradas da formiga é a preparação para o rapaz se tornar um bom homem quando casar. Levado por um índio mais velho, o jovem põe o braço no formigueiro e se deixa ferrar; em seguida, retira as formigas e não pode se coçar. O braço incha e aumenta a coceira. Depois de três dias, ele está pronto para ser um bom pescador e contrair matrimônio.

A cultura macuxi é mesmo interessante, não? Mas graças a deus eu já sou casado.

Voltando à gastronomia, outra iguaria peculiar dos macuxis é o Guzano de Morixe, larva resultante do fruto apodrecido de buriti, árvore comum em toda a região: quando o fruto do buriti cai da árvore, apodrece e uma mosca coloca a larva. Dela, nasce o Guzano, uma iguaria muito apreciada pelos índios.

Vou voltar para esse lugar mágico, místico, envolvente, onde, se diz, o homem tem um encontro consigo mesmo.

Dá uma dor no peito ver que o Brasil e a América do Sul são tão ricos, têm tanto a oferecer são tão desconhecidos.

Eu tenho esperança de que um dia vamos resgatar a nossa cultura e construir a Pátria Grande sonhada por Bolívar.

                            Joel Leite, das terras dos macuxis