O que podemos aprender com o “Homem que plantava árvores”

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Por Marcio Motta

Boa parte das notícias ambientais publicadas atualmente referem-se ao cenário global tenebroso que temos hoje: impacto das mudanças climáticas, extinção de espécies, aumento do desmatamento ou o desastre causado pelo lixo no mar, eventos causados principalmente pelo aumento desenfreado da população humana nos últimos cem anos. Após a leitura dessas informações, a sensação de impotência torna-se latente, e surge o entendimento de que para ocorrer uma mudança de cenário é necessário um batalhão de seres humanos unidos em torno de um ideal. Mas gostaria de apresentar o ponto de vista oposto, através da reflexão da fábula “O homem que plantava árvores“, escrito por Jean Giono.

A história tem como personagem principal o solitário Elzéard Bouffier, encontrado por um viajante numa região semi-desértica no sul da França (habitada por poucos camponeses miseráveis, que encontraram na produção de carvão como forma de subsistência) criando ovelhas e plantando carvalhos (Quercus sp.). A forma como Bouffier vivia e manejava cuidadosamente as sementes intrigou o viajante, que passou a visita-lo durante anos. A cada ano percebia que a paisagem se alterava positivamente e que o homem ampliava o número de espécies que plantava. Depois de plantar mais de 100 mil carvalhos (onde “apenas” 10 mil sobreviveram), continuou plantar outras espécies, como faias (Fagus sp.) e bétulas (Betula sp.). Quando percebeu que as ovelhas ameaçam as mudas das futuras árvores, desfez-se delas e iniciou uma criação de abelhas, ótimas polinizadoras. A persistência e resiliência caminharam juntos no processo:

Nunca o vi ceder ou duvidar. Perdi as contas dos seus dissabores. Foi preciso vencer as adversidades para garantir a vitória de uma paixão como aquela, foi preciso lutar contra a desesperança. Durante um ano, ele havia plantado mais de mil bordos (Acer sp.). Todos morreram. No ano seguinte, desistiu dos bordos para voltar às faias, que se deram ainda melhor do que os carvalhos.

Durante os anos de trabalho, o processo de transformação e sucessão ecológica permitiu que a água voltou aos riachos, e o vento ajudou a dispersar as sementes que permitiu o aparecimento de outras espécies, como o salgueiro (Salix sp.), por exemplo. Essa mudança se deu lentamente, por mais de 30 anos, passando a 1ª e 2ª Guerra Mundial ser ter conhecimento desses eventos.

Mas a mudança se dava tão lentamente que entrava no cotidiano sem fazer alarde.

Assim, as pessoas atribuíram a mudança à algum evento natural e em 1935 uma delegação do governo francês foi visitar a recente famosa “criação”.

Em 1935, uma verdadeira delegação veio examinar a “floresta natural”. Havia um figurão do governo, um deputado e alguns técnicos. Muitas palavras inúteis foram pronunciadas. Decidiu-se que algo seria feito e, felizmente, nada foi feito a não ser a única coisa útil: por a floresta sob proteção.

Numa das últimas visitas do jovem (já não tão jovem), encontrou um Bouffier que não falava mais, possivelmente pois não havia mais necessidade de dizer algo e uma vila, antes desolada e precária, totalmente renovada. No lugar dos poucos habitantes, uma comunidade viva com cerca de 10 mil pessoas, terminando com a seguinte reflexão:

Quando considero que um único homem, reduzido a seus meros recursos físicos e morais, foi capaz de transformar um deserto em uma terra fértil e viva, penso que, apesar de tudo, a condição humana é admirável. Mas quando faço a conta de quanta constância na grandeza de alma e de persistência na generosidade foram necessárias para obter esses resultados, sou tomado de um imenso respeito pelo velho camponês.

O silêncio aparece sob diversos sentidos, sensação que surge durante a leitura e também sob a forma do comportamento de Bouffier, que promove uma transformação fantástica sem a necessidade de se auto promover, desafio complexo em tempos de mídias sociais centro no “eu”. Algumas questões emergiram ao longo da leitura. Uma delas é a motivação do homem em realizar suas ações durante anos: será que foi desejo (“eu me sinto bem“) ou responsabilidade (“é a minha missão“)? Outra: se o autor é o jovem que visita o homem, o que o levou a se inserir na fábula? Ele acredita na mudança provocada por um homem só? Por último, será que nossa dificuldade em encontrar Bouffiers em nossa realidade próxima se dá pela diminuição da percepção de entorno devido à nossa incapacidade de esperar, observar e refletir? O autor nos dá uma pista:

Para que o caráter de um ser humano desvende qualidades realmente excepcionais, é preciso ter a boa sorte de poder observá-lo em ação durante longos anos.

Enfim, indico o livro para todos e todas que consideram que uma pessoa só não promove mudanças ambientais significativas. As questões que emergem da fábula nos ajudam na reflexão sobre o papel de cada um de nós na luta em prol da conservação ambiental global.

Boa leitura!

Dados do livro:

Giono, Jean. O homem que plantava árvores. Tradução de Cecília Ciscato e Samuel Titan Jr. Ilustrações de Daniel Bueno. Coleção Fábula. 1ª edição. Editora 34, 64 p. 2018