O dilema do macaco nu

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Em seu leito de morte, Pierre Boulle, autor de “O planeta dos macacos” (1963), proferiu as seguintes palavras: “Não se esqueçam de mim” (presente na belíssima edição de 2015 da Aleph). Hoje fica óbvio que não nos esquecemos, embora uma parcela considerável da população não conheça o autor do livro que deu origem ao homônimo sucesso do cinema. Após a leitura do livro, senti a necessidade de colaborar com o pedido do autor e escrever minhas impressões sobre sua obra.

Embora o livro seja considerado uma ficção científica, o que me levou a lê-lo está relacionado com minha inclinação sobre a temática etológica e relação humano-outros primatas. A história está baseada num planeta dominado por grandes primatas não humanos: gorilas, chimpanzés e orangotangos, exatamente como nossos primos terráqueos. A diferença é que no planeta Soror, a organização desses primatas é semelhante à nossa na Terra, e lá os subjulgados somos nós, bestas peladas e primitivas, tratadas exatamente da mesma forma como os tratamos aqui. Resumindo: um planeta idêntico ao nosso, mas com a relação humano-outros grandes primatas invertida, numa espécie de universo paralelo.

O registro e o relato da história que se passa no livro é realizada pelo jornalista humano-terráqueo Ulysse, que embarca numa viagem espacial com outros dois humanos em busca de novos planetas. Após um acidente com a nave a tripulação chega ao planeta, onde são capturados pelos primatas não humanos e passam a ser tratados como os humanos residentes: animais sem consciência que servem principalmente para estudos científicos, como carregadores ou animais de estimação. Ele descreve com terror e indignação a estrutura social complexa e avançada dos grandes primatas não humanos, bem como a simplicidade animalesca dos humanos. Esses sentimentos o levam a tentar se aproximar da equipe de chimpanzés cientistas e aprender sua língua para então traçar seu plano de fuga. Observa, durante esse período, a divisão social, as jogadas políticas e a tentativa de manutenção do poder pelos orangotangos, baseadas na intimidação, autoritarismo e mistificação de fatos essenciais à vida primata. Fica claro que a lógica dos primatas não humanos é a mesma dos humanos aqui na Terra: como seres “conscientes e inteligentes”, temos a percepção de que podemos influenciar e manipular outras espécies simplesmente porque podemos.  Não há macaco mau na história, mesmo quando observarmos chimpanzés praticando lobotomia, gorilas matando sem pretexto aparente ou orangotangos gerenciando politicamente a sociedade mediante exploração dos humanos, não há semelhança com nosso comportamento mediante outras espécies aqui na Terra? Nas palavras de Boulle:

O bem é bom apenas sob determinado contexto. Não é necessariamente algo universal.

Um dos pontos que mais gerou reflexões foi o momento do encontro do jornalista com outro membro da tripulação – o professor – separados logo após a queda da nave. Depois de aprender a se comunicar com os cientistas chimpanzés, orangotangos e gorilas, conseguiu respeito, status diferenciado e é chegada a hora de resgatar o amigo do meio dos humanos primitivos. Para sua surpresa, não há mais nada de “professor” naquele humano. Há apenas um ser que executa comportamentos básicos, respondendo à estímulos internos e externos do ambiente: come, dorme, gesticula e fica junto aos outros primitivos. Várias reflexões e hipóteses surgiram durante (e após) a leitura: foi uma escolha do professor? Qual o verdadeiro sentido de tornarmos nossa existência cada vez mais complexa, sobre o pretexto de deixá-la mais simples?

O próprio jornalista viveu seus dilemas e contradições. Encarcerado com uma bela humana primitiva, sentia desejo sexual, mas até certo ponto a desprezava. Ao lado da chimpanzé cientista, sentia uma identificação latente através das ideias e emoções, mas não admitia que era possível essa relação entre um humano e um chimpanzé, seja lá em que parte do universo isso ocorresse.

O final do livro é surpreendente e mesmo assim, inevitável.