Feio e desprezado, o mangue é o berçário do mar

0
12528
Peixe-boi, Rio Tatuamunha Foto: Araquem Alcantara

APA Costa dos Corais 1/4
Liberdade de Ivi indica sucesso do Programa Peixe-boi da Costa dos Corais. Em 23 anos, 46 animais foram reintroduzidos à natureza

O mangue tem uma enorme importância social, econômica e ecológica e presta grande serviço para a sociedade, mas não é visto pela população como algo positivo. Ao contrário, com seu aspecto rústico e aparentemente “sujo”, muita gente não enxerga o papel essencial do mangue na natureza.

Clemente Coelho Junior, professor da Universidade de Pernambuco, lembra que as pessoas não enxergam a importância do mangue, mas todos são beneficiados por ele.

Clemente Coelho Junior
Foto: Rafael Munhoz

“O mangue impulsiona a biodiversidade dos nossos oceanos; 70% dos peixes de importância econômica se reproduzem no ecossistema manguezal, que abriga inclusive espécies ameaçadas, caso do peixe-boi”, disse o professor, estudioso do assunto, doutor em manguezal e um dos lutadores do trabalho feito na Costa dos Corais, especificamente no município alagoano de Porto de Pedras, onde é feito o trabalho de manejo e a soltura de peixes-bois com o objetivo de reduzir o risco de extinção da espécie.

Foto: Rafael Munhoz

A preocupação com a sobrevivência desse mamífero aquático é recente. Até bem pouco tempo ele era visto como um animal para consumo na gastronomia e como problema para os pescadores, que tinham seu material de trabalho comprometido quando um deles se enroscava na rede.

O dicionário Aurélio revela o descaso da sociedade com a biodiversidade e particularmente o animal:
Peixe-boi: S. m. Mamífero da ordem dos sirênios, da família dos triquequídeos. Sua carne é boa. Pode-se extrair cerca de 200 quilos de azeite de cada animal adulto.

Peixe-boi, Rio Tatuamunha
Foto: Araquem Alcantara

Antônio Santos, presidente da Associação Peixe-boi, fala da recente transformação da visão que a comunidade local tem do animal, graças ao trabalho de conscientização realizado pelos ambientalistas:

“Muitos dos jangadeiros que nós temos aqui foram pescadores ou são filhos de pescadores, e tinham o peixe-boi como uma ameaça ou até mesmo como um animal de estimação, por conta da sua docilidade. Hoje, a espécie é um verdadeiro gerador de renda no município. Muitas pessoas atuam no turismo de observação ou na produção de artesanatos”.

Foto: Rafael Munhoz

Vivenciamos um dia especial aqui em Porto de Pedras (Al) . Emocionante, principalmente para as pessoas que passam o ano todo cuidado dos animais que vivem sob o controle da associação no mangue do rio Tatuamunha. Atualmente são 4 peixes-bois sendo preparados para que possam retornar a vida livre no mar. Ivi está ganhando hoje a liberdade, uma fêmea de seis anos de idade e 436 quilos, os próximos devem ser Raimundo, Luiz Gonzaga e Arati (nessa ordem). A reintrodução de Ivi, assim como dos oito filhotes nascidos de fêmeas devolvidas à natureza nos últimos anos, são indicativos de sucesso e motivo de alegria para os especialistas do Programa Peixe-boi. No total foram devolvidos 46 animais desde 1994, quando foi iniciado o Programa Peixe-boi do Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste, do Instituto Chico Mendes.

Foto: Rafael Munhoz

A idéia é reconectar duas populações isoladas (entre Alagoas e Pernambuco) e proporcionar o fluxo gênico, reduzindo as chances de extinção da espécie. Distribuídos ao longo do litoral do Espírito Santo até o Amapá, a população do peixe-boi foi diminuindo principalmente devido à caça e à baixa reprodutividade.

Em 2014, a espécie deixou de constar na categoria “Criticamente em Perigo”, mas ainda está ameaçada de extinção. A estimativa é de que cerca de 1000 peixes-boi vivem entre Alagoas e Piauí, ou seja, a população dobrou desde o início da luta contra a sua extinção.
O Rio Tatuamunha é um ambiente mágico. Silencioso, de absoluto respeito aos peixes-bois que vivem ali. Barqueiros, jangadeiros, pescadores, agentes ambientais, a população em geral enxerga o local como um santuário, tratam o mangue com um carinho e uma atenção invejável.

Foi emocionante ver Ivi se deslizando nas águas do Tatuamunha, monitorada através de microchips e transmissores por satélite para que se possa acompanhara sua adaptação. Será que ela vai encontrar com facilidade pelo menos 40 quilos de capim-agulha, folhas de mangue e algas marinhas? Sim, ela come cerca de 10% do seu peso diariamente.

Foto: Rafael Munhoz

O professor Clemente reforça que outro serviço importante prestado pelo manguezal ao planeta é a captação do CO2 da atmosfera.

“É a floresta que mais absorve carbono, comparada com as florestas terrestres. Ela aprisiona carbono proporcionalmente mais do que as outras, apesar da área ser menor. É um grande aliado do combate do aquecimento global.”

O manguezal é um ecossistema regido pelas marés e por isso ele se adapta ao ritmo do mar, inclusive com a disseminação de sementes. O mangue é um ambiente abrigado da força erosiva das marés e das ondas, se desenvolve na foz dos rios de planícies costeiras, onde a água do mar invade os rios, às vezes por quilômetros, formando um ambiente propício para a reprodução de várias espécies. A maioria das espécies de peixes nobres que vivem no mar passam parte da vida no manguezal. principalmente na época da reprodução, daí a importância do ecossistema.

Foto: Rafael Munhoz

A expansão urbana, a ampliação dos portos, o surgimento de pólos petroquímicos e a carcinicultura (criação de crustáceos) são as principais ameaças aos manguezais. Mesmo sendo proibida, quase a totalidade da produção de camarão no Brasil é feita no manguezal. Para promover a produção, parte do mangue é desmatada e a ração utilizada deixa no mangue resíduos nocivos ao meio ambiente, como antibióticos.

Outro impacto importante é a ocupação desordenada de áreas junto a rios costeiros, seja casas ou resorts, em áreas de mangue, seja no litoral. Sem saneamento básico, os dejetos são lançados diretamente no mangue, que acaba sendo o depositário de toda a sujeira.

O manguezal, na verdade é um grande filtro, uma vez que absorve essa sujeira, reduzindo a poluição levada para o mar. Mas a um custo muito alto, porque o esgoto é incorporado à biomassa e destroi os organismos vivos do sistema.

O trabalho do professor Clemente e dos demais ambientalistas dedicados à preservação da Costa dos Corais é fundamental para que as pessoas consigam entender a importância da preservação da natureza, especialmente do manguezal, que é o berçário da biodiversidade do mar.

Percival Maiante
Foto: Rafael Munhoz

Para Percival Maiante, presidente da Fundação Toyota do Brasil, que dá suporte ao programa de reintrodução do peixe-bia à natureza, o processo educativo é fundamental para a mudança de comportamento dos cidadãos.

“Um dos objetivos desse projeto é fazer com que moradores e turistas aprendam a viver com a biodiversidade e a preservá-la. Não se trata de impor normas. Trata-se de educar para sustentar”, definiu o dirigente.