Em dois anos, Amazônia revela 20 novos mamíferos

0
12738
Foto: Adriano Gambarini- WWF Brasil

Relatório registra a descoberta de 381 espécies de animais e plantas, incluindo um primata e um boto

O relatório do World Wide Fund for Nature (WWF) e do Instituto Mamirauá – unidade de pesquisa do Ministério da Tecnologia, Inovações e Comunicações – reafirma a importância da proteção das áreas naturais como patrimônio de diversidade genética brasileira e mundial.

As descobertas feitas nos anos 2014 e 2015 são surpreendentes até mesmo para os pesquisadores, mesmo diante da riqueza da biodiversidade da Floresta Amazônica.

Foram descritas nada menos do que 381 novas espécies nesses dois anos, sendo 216 plantas, 93 peixes, 32 anfíbios, 19 répteis, uma ave e 20 mamíferos (relatório “Atualização e Composição da lista Novas espécies de Vertebrados e Plantas na Amazônia 2014-2015”), entre elas o macaco Zogue-zogue Rabo de Fogo, duas espécies fósseis e uma de golfinho fluvial, que se configura como a primeira descoberta desse tipo no último século.

Foto: Adriano Gambarini- WWF-Brasil

Se em plena segunda década do século 21 estamos descobrindo grandes mamíferos, o que esses ambientes ainda guardam de plantas, invertebrados, fungos e microrganismos?
A descoberta de novas espécies como o boto-do-araguaia sugere um potencial de novos achados e devem incentivar novos levantamentos de fauna. Além disso, é importante que os órgãos governamentais e sociedade civil organizada reforcem a proteção dos ambientes naturais onde a espécie ocorre, resultando assim na conservação das demais espécies que habitam esses ecossistemas.

A descrição do golfinho fluvial Inia araguaiaensis, desconhecida pela ciência até 2014, foi possível a partir da análise de carcaças encontradas em um lago do rio Araguaia, em Goiás. Os especialistas acreditam que essa espécie tenha se separado das populações da bacia do Amazonas há quase três milhões de anos. As análises dos ossos do crânio demonstraram que a espécie se distingue das outras duas do gênero Inia conhecidas atualmente, o boto da Amazônia e o boto da Bolívia. A espécie, no entanto, já está ameaçada, pois está restrita às bacias dos rios Araguaia e Tocantins, regiões sujeitas à construção de hidrelétricas e indústrias, segundo Miriam Marmontel, pesquisadora do Grupo de Pesquisas em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, que também destacou a importância da descoberta:

“Ainda pouco se sabe da ecologia da nova espécie, mas suspeita-se que tenha distribuição limitada às bacias dos rios Araguaia e Tocantins, e que não exceda mais de 1000 indivíduos. Considerando as atividades antropogênicas correntes na região, como hidrelétricas, agricultura, pecuária e indústria, a nova espécie já pode estar em situação preocupante de conservação”.

“A identificação da nova espécie, com distribuição limitada e abundância aparentemente baixa, ocorrendo em locais sob variadas pressões antrópicas, sinaliza para uma atenção especial, diferenciada do que se consideraria para, por exemplo, a espécie Inia geoffrensis, que se encontra muito mais amplamente distribuída pela bacia amazônica, embora também sofrendo pressões”, disse.

Foto: Gabriel Melo Santos

Os botos fazem parte do imaginário coletivo na Amazônia e são facilmente avistados nos rios da região.

Outra espécie de destaque que compõe o relatório é o Zogue-zogue Rabo de Fogo (Plecturocebus miltoni) primata endêmico do Brasil, que ocorre nos limites de importantes unidades de conservação: a Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Aripuanã e o Parque Nacional dos Campos Amazônicos.

A publicação com a descrição do primata foi feita pelos pesquisadores Júlio César Dalponte, do Instituto para a Conservação dos Carnívoros Neotropicais (Pró-Carnívoros), Felipe Ennes, do Instituto Mamirauá, e José de Souza e Silva Júnior, conhecido como Cazuza, coordenador de Zoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi.

“Espero que a descrição da espécie possa contribuir para iniciativas que preservem o uso sustentável da floresta e também alavancar pesquisas na região”, disse Júlio Dalponte, sugerindo que esse carismático primata poderia ser a espécie-bandeira da campanha de defesa da causa.

“O sonho é poder estabelecer um núcleo de pesquisa e conservação na Guariba-Roosevelt, coração da terra do rabo-de-fogo, tendo essa nova espécie como carro-chefe da conservação da região noroeste. E que ajude a manutenção do uso sustentável da floresta, de certa forma já promovida por comunidades extrativistas de castanha-do-Brasil”, disse.

A região amazônica abarca nove países: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela.


Por Márcio Motta,  biólogo, Mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina e colaborador do ECOinforme.