É possível conhecer a verdadeira natureza animal através de suas sombras?

0
13984

Sombras são estruturas intrigantes. Embora alguns digam que são inexistentes, podemos reconhecê-las quando, na ausência da luz, ocupam determinados espaços atrás de um objeto ou ser com uma fonte de luz à sua frente e nos permitem relacionar suas formas com aquilo que as produziram. Mas é só isso. São apenas produto de algo e não possuem autonomia ou expressão autêntica, como prisioneiras de uma condição imposta pela Física.

Animais são seres intrigantes. Milhões de anos de Seleção Natural produziram uma diversidade faunística incrível e esse encantamento que temos com essa diversidade nos estimula a querer observar e estudar os animais de forma contínua e próxima. Desde o século 19 a forma que encontramos de fazer isso foi aprisionar o maior número de exemplares da grande fauna de mamíferos, répteis, aves, anfíbios e peixes em zoológicos e aquários espalhados pelo mundo. Embora a intenção pareça boa até os dias de hoje, não é difícil reconhecer, mesmo para os leigos, os fatores negativos que a ausência de liberdade provoca na maioria dos indivíduos, principalmente a incapacidade de expressar grande parte do repertório comportamental que se desenvolveu durante os milhões de anos de evolução dessas espécies. Sendo assim, os indivíduos cativos terminam seus dias sem autonomia e expressão autêntica plena, como prisioneiros de uma condição imposta pelos humanos, principalmente em instituições de pequeno porte, como temos em grande quantidade no Brasil.

Dessa relação entre a sombra e os animais cativos surgiu a ideia de criar um projeto fotográfico documental sobre a atual condição desses animais nos pequenos zoológicos e aquários no Brasil. Inevitavelmente o projeto recebeu o nome de Sombras da Natureza. A ideia é visitar pequenos zoológicos brasileiros nos próximos seis meses e trazer à discussão a real necessidade de expor animais para visitação pública com o objetivo de educar os visitantes.

A pergunta que esse projeto tentará responder é exatamente essa: Será que a exposição pública de animais em cativeiro está realmente educando as pessoas que visitam diariamente essas instituições? O objetivo não é discutir se zoológicos devem continuar a existir, pois existem importantes trabalhos de conservação sendo realizados em cativeiro em todo o mundo (inclusive no Brasil), mas sim questionar a necessidade de expor esses animais à visitação pública e propor alternativas.

É o que vamos descobrir e discutir nos próximos meses.

Por Márcio Motta,  biólogo, Mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Londrina e colaborador do ECOinforme.