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domingo, novembro 18, 2018

Depois de 19 dias e 8.147 quilômetros de estrada, uma balsa rodeada de albatrozes e leões-marinhos levou a expedição a Puerto Toro, o vilarejo mais austral do planeta

Depois de 19 dias e 8.147 quilômetros de estrada, a expedição Honda – Pra Lá do Fim do Mundo chegou, finalmente, pra lá do fim do mundo. O desembarque em Puerto Toro, vilarejo mais austral do planeta, aconteceu às 11h06 de domingo, dia 25 de março. A última perna da expedição foi de tirar o chapéu. Com o WR-V e o HR-V a bordo, a Yaghan, enorme balsa de 77 metros de comprimento, balançou suave por duas horas e 20 minutos pelo canal de Beagle, nos 50 quilômetros que separam a minúscula Puerto Williams e a menor ainda Puerto Toro.

No trecho final, entre as montanhas nevadas e forradas de árvores que começam a trocar o verde do verão pelo vermelho do outono, o Beagle vira uma pista de pouso e decolagem de aves dos mais diversos portes e cores. Destaque para os albatrozes. Eles surfam a marola provocada pela balsa.

Esticam o pescoço, andam por uns cinco segundos sobre as águas e levantam voo. Pousam logo ali adiante, respeitando o espaço onde famílias de leões marinhos colocam a cabeça para fora d’água e exibem-se para as câmeras fotográficas e celulares dos viajantes que enfrentam o vento no convés da embarcação.

Surge um naufrágio à esquerda. É um navio-biblioteca que em tempos pré-internet levava livros aos poucos moradores desse pedaço do mundo. O piloto deu com a proa nas pedras que rodeiam uma ilhota. “Navegar pelos canais chilenos requer atenção mesmo em dias calmos como hoje”, diz o piloto da Yaghan, Andres Cardenas. A balsa segue tranquila até avistar Puerto Toro. Basta esperar a rampa abaixar, um caminhão cheio de toras de madeira descer (o inverno se aproxima) e levar os carros para um passeio pela última rua do mundo, uma subida cheia de pedras e buracos… “Chegar aqui de carro é surpreendente e emocionante”, disse Amyr Klink depois de conduzir o HR-V até a minúscula praça central do vilarejo e fincar a bandeira da expedição. “Depois de mais de 8 mil quilômetros, chegamos, nós e os carros, em perfeito estado”, disse o jornalista Joel Leite, idealizador da expedição ao lado de Amyr. Até prova em contrário, os Honda são os dois primeiros carros brasileiros a chegarem tão ao sul no globo terrestre.

O navegador já havia estado ali outras tantas vezes, mas sempre de barco. “Puerto Toro é a última latitude possível de acessar antes de chegar à Antártica.” Está na latitude 55°05’, só um pouquinho ao norte do Cabo de Hornos, o extremo sul oficial do continente. Na última passagem por lá, Amyr enfrentou chuvas fortes e ventos de mais de 110 nós. Nessa manhã de domingo, estava emocionado com a conquista sobre quatro rodas e sem entender tanto azul no céu e a ausência quase total de vento no momento da chegada da expedição.

Depois de descer do HR-V e caminhar por Puerto Toro, Amyr se separou da equipe sem dar explicação. Voltou dez minutos depois, carregando uma bandeja com nove empanadas de carne. “Eram as últimas nove do restaurante”, disse, feliz da vida, referindo-se ao único restaurante da vila. Celebramos a conquista, fizemos as fotos de praxe, rodamos de carro pelas únicas duas ruas do povoado, fomos ver de perto o trabalho dos pescadores de centolla e… não havia tempo para mais nada.

A Yaghan estava de partida. A balsa ousa vir de Puerto Williams para Puerto Toro apenas no último domingo de cada mês. É a única forma de chegar até aqui. O projeto para a construção de uma estrada está no papel. Esse trecho de balsa é gratuito e visa estimular o turismo em um vilarejo pouco lembrado pelos chilenos. Moram aqui apenas 18 pessoas – militares ou pescadores de centolla. Sua extrema posição austral a faz importante militarmente. Em 1978, foi a base chilena durante uma disputa territorial com a Argentina. Os dois países falaram alto e quase foram às vias de fato em 1978.

De balsa, retornamos para Puerto Williams, onde nos despedimos dos carros. Guerreiros, em ótimo estado, vestidos com uma grossa camada de sujeira, o WR-V e o HR-V que nos trouxeram de tão longe seguiram a bordo da Yaghan, a caminho de Punta Arenas, de onde retornarão de cegonha ao Brasil. A equipe tomou um ônibus até Puerto Navarino. Ali, subimos em uma barca que levantou dúvida sobre sua capacidade de vencer o agito do canal de Beagle e nos levar de volta à Argentina.

A embarcação chegou a parar no meio da travessia. Mas venceu a correnteza e aportou em segurança em Ushuaia, a uma hora de distância. Seguimos todos para o La Cantina Fueguina de Freddy para comer a centolla de despedida. Dessa vez, não foi preciso da ajuda de Amyr. Entre os muitos ensinamentos deixados pelo navegador, aprendemos todos a destrinchar com maestria o crustáceo.

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