De Grand Picasso, conhecendo um Tietê limpo e piscoso

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Ele nasce pertinho do mar, mas o destino quis que ele fizesse uma longa e tortuosa rota até misturar suas águas com as do Atlântico: ao invés de descer o morro e se desmanchar como um “corguinho” nas areias do litoral paulista, ele avançou pelo interior, agigantando-se, tornando a razão de sobrevivência de comunidades, vilas e cidades que se expandiram sob seu acolhimento.

Maltratado, agredido, mutilado, o rio Tietê supera as intempéries e consegue reviver, retomando sua condição de rio limpo, caudaloso e piscoso depois de 600 quilômetros de sofrer a mais violenta agressão na região metropolitana de São Paulo, onde recebe toneladas de esgoto e tudo o que é tranqueira deixada pela população nas ruas: a chuva leva o material para os córregos, estes para o rio, que vira um receptor de lixo.

Na última etapa dessa expedição a bordo de carros da Citroën para conhecer a história do rio mais importante do Estado de São Paulo, viajamos ao extremo oeste paulista, mais exatamente na cidade de Pereira Barreto, onde as águas do rio de espalham em canais e represas, agora limpa, recuperada da agressão na Capital.

Na primeira etapa da expedição, fomos à cidade de Salesópolis, onde bebemos água da nascente (veja “Fui de Aircross, beber água e achei”). Em seguida conhecemos as três cidades mais prejudicas pela poluição do rio: Salto, Pirapora de Bom Jesus e Santana do Parnaíba, uma vez que o Tietê corta o coração desses municípios, (veja “Água que Passarinho não bebe”). Desta vez fomos de Grand Picasso, mais recomendado para uma viagem longa, pois proporciona muito conforto, desempenho excelente com seu motor 1.6 THP, que chega a até 165 cavalos à gasolina e espaço de sobra no porta malas para acomodar as compras: é imperdível uma visita à fábrica de Jamon Salamanca, em Catanduva. A fábrica fica na beira da rodovia Washington Luiz, no km 456. Menos de 50 km mais adiante, você encontra uma imensa variedade de doces caseiros, tradição da pequena cidade de Engenheiro Smith. Um melhor do que o outro.

É reconfortante encontrar o rio limpo depois se tanta agressão, faz a gente alimentar a esperança de ver um dia também o paulistano parar o carro no estacionamento ao longo da avenida Marginal, montar as tralhas, sentar numa cadeira confortável à beira do rio e lançar o anzol nas águas límpidas em busca de um troféu.

Enquanto devaneio, vou onde a realidade já oferece o prazer de desfrutar do rio limpo e de uma boa pescaria. Nossa parada é na Pousada Sanae, em Pereira Barreto, lugar simples, acolhimento em cabanas de madeira, mas com o conforto de um ar condicionado no quarto e uma geladeira na sala. É um recanto de pescadores, que passam o dia todo embarcado e por isso vão procurar mesmo muito conforto na hospedagem. Logo cedo zarpamos numa voadeira e, sob a orientação do piloteiro Toshio, iniciamos a pescaria. O sol queima. Cansa. Três horas e meia dúzia de piranhas depois bateu aquela fome. Mas não retornamos até fisgar o meu troféu, um brigador tucunaré, objetivo da viagem para mostrar que o Tietê volta a ser piscoso e vigoroso na confluência do Complexo de Urubupungá, formado pelas usinas de Jupiá, Três Irmãos e Ilha Solteira, esta a cerca de 50 km ao Norte, às margens do Rio Paraná.

O visitante encontra praias com boa infra estrutura nas duas cidades – Pereira Barreto e Ilha Solteira – muito concorridas pela população local que, afinal, vive a 700 quilômetros da praia de mar mais próxima.

As três usinas geram 4,6 milhões de quilowatts, fornecendo energia para os estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás.

A viagem é tranquila, embora demorada. Saia de São Paulo sem pressa, pela rodovia dos Bandeirantes, pegue a Washington Luiz na direção de São José do Rio Preto. Gaste o dia todo para chegar, saboreie o passeio, curta o que a jornada oferece.

Rodamos no total, incluindo a ida a Ilha Solteira, 1.450 quilômetros. As marcações de consumo de combustível revelam que a forma de dirigir e as condições da via alteram bastante o gasto. Em três marcações, fizemos números bem distintos: 8,1 km/l, 10,5 km/l e 9 km/l cravados. No total foram R$ 710,00 de gasolina e R$ 172,20 de pedágios, dezoito no total, ida e volta. Após Rio Preto não há cobrança de pedágio.