Considerações sobre a humanidade através do olhar de um orangotango marxista e oprimido

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Foto - Jack Cain on Unsplash

Recentemente li uma história incrível, narrada por um orangotango darwinista-marxista e escrita por Marcelo Rubens Paiva. Durante sua jornada através do Departamento de Biologia de uma universidade e um pequeno e miserável zoológico no interior paulista, ele fez três considerações sobre e para nós, macacos nus:

Deixem as outras espécies em paz;

Estamos engordando;

A luz mágica da tela que seguramos o tempo inteiro tira nossa atenção.

Como biólogo, inicialmente foi difícil entender a primeira consideração de nosso primo primata. Mas lendo sua história e refletindo sobre o modo invasivo que adotamos nos últimos séculos para os diversos fins relacionados aos animais (estudo, lazer, comércio, turismo, saúde, indústria e alimentação), sou inclinado a concordar. Penso se realmente se faz necessário — na escala em que fazemos hoje — manter animais para exposição pública e lazer, fazer safaris para invadir áreas naturais de centenas de milhares de espécies, testar como substâncias químicas ou microrganismos se comportam em cães ou primatas (ou porcos, coelhos, gatos, etc.), abrir animais ainda vivos para entender o funcionamento de suas partes, coletar milhares de espécimes para museus e universidades ou até mesmo criar ou caçar/pescar uma série de animais para consumo humano. Minha questão principal:

Essas atividades são imprescindíveis ou inegociáveis, ou seja, haveria alguma outra forma de atingirmos nosso objetivo que não fosse através da exploração de outras espécies ou da nossa?

Sobre a segunda, de que estamos engordando, fica mais fácil concordar. Na minha concepção, estamos engordando porque abraçamos a economia calórica como regra e a preguiça como prática de (sobre)vivência, engordando proporcionalmente todas as parte do corpo, inclusive nosso encéfalo. Temos preguiça de levantar da cama, sair do sofá, subir escadas, andar, comprar comida, fazer comida, lavar a louça, enxugar a louça, tomar banho, trabalhar, estudar, argumentar, pensar. Ler um livro é tarefas de poucos, a escrita foi substituída pela digitação, que foi substituída pelos emojis, que está sendo substituída pelos comandos de voz. Exercícios diários são trocados por cremes milagrosos ou dietas impraticáveis a longo prazo, sendo que em muitos casos delegou-se para alguém a tarefa importantíssima de preparar seu próprio alimento. O resultado prático é que deixamos de saber o que estamos ingerindo todos os dias. Me pergunto:

Onde está o bem sucedido humano caçador-coletor? Escuto o orangotango dizer: “Ele terceirizou todos os serviços para as máquinas, apps, Siris e outros humanos. Está ali, enterrado no sofá, hipnotizado pela luz mágica da tela”.

A tela mágica. Na minha opinião ele foi de uma observação cirúrgica e genial. Estamos realmente hipnotizados pelos nossos aparelhos celulares. Perdemos a capacidade de observação e fica fácil perceber isso quando saímos da nossa hipnose digital e observamos as pessoas nos espaços públicos (e privados). Elas estão imersas no mundo digital, com seus milhares de “amigos”e “seguidores” , numa busca frenética por audiência e curtidas. As “facilidades” vendidas através de aplicativos nos atingem em cheio e ficamos fascinados, por exemplo, por não precisarmos mais saber como chegar nos lugares, quem nos levará ou até mesmo se o local atenderá nossas expectativas: está tudo na tela mágica e ela nos conhece melhor do que nós mesmos. Estamos fornecendo uma quantidade enorme de dados pessoais diariamente para empresas que conhecemos (ou não), que os utilizam hoje de forma que possivelmente não desejamos. E assim, fica a dúvida:

Qual o impacto dessa coleta de dados pessoais para futuro da humanidade?

Termino essa reflexão com uma frase do primata, que resume minha preocupação com o que vem pela frente:

“Me preocupo. Sem a capacidade de distinguir o real do digital, o que será de nós, já que toda a natureza foi domada, todas as espécies estudadas, e muitas delas, como eu, enjauladas a seus cuidados, pois vocês não nos deixam em paz?”

Por Marcio Motta