Captura acidental provoca morte em massa de animais marinhos

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“Em São Francisco do Sul, Santa Catarina, voluntários de ONGs fazem ações na praia para explicar bycacht”

Chamado “bycatch” é responsável por 40% do que vem na rede; guia de consumo de pescado sustentável será lançado em 2019

Por: Sabrina Pires

Pesquisadores se reuniram em Santos para discutir a captura acidental em águas brasileiras. Segundo estimativas de cientistas, 40% dos animais que são capturados nas redes não eram o alvo da pesca, morrem e são descartados. É o chamado bycatch. “Estamos matando golfinhos, baleias, tubarões, tartarugas, até aves, e colocando muitas espécies em risco”, diz Mia Morete, bióloga e fundadora da ong VIVA Baleias, Golfinhos e cia.

O dia internacional stop bycatch (pare a captura acidental) é iniciativa da ong VIVA e reuniu representantes de 40 instituições entre ONGs, universidades e institutos de pesquisa. Além do evento principal no Instituto de Pesca de Santos, outras 12 cidades brasileiras e uma da Colômbia (Santa Marta) também tiveram encontros para debater o tema.

Evento realizado pelo VIVA Baleias, Golfinhos e cia, no Museu do Instituto de Pesca de Santos no Dia Internacional Pare a Captura Acidental.

Dados apresentados pela professora da Unesp/São Vicente e diretora do Instituto Biopesca, Carolina Bertozzi, indicam que por ano morrem mais de cem toninhas (espécie de golfinho) entre Praia Grande e Peruíbe, no litoral sul paulista. O boto-cinza também é uma vítima comum das redes que buscam peixes, mas capturam outros animais. “O impacto é enorme porque 80% desses indivíduos são juvenis e ainda não se reproduziram”, explica a professora. Se nada for feito as toninhas devem entrar em extinção. Os dados são contabilizados a partir de relatos de pescadores, mas é unânime a opinião entre estudiosos de que os números são bem maiores.

“O pessoal não quer pegar tartaruga, golfinho. A lei diz que se isso acontecer, precisa reportar e devolver ao mar, mas se eles reportam, são presos. Então a lei não ajuda (a dar dimensão real do problema)”, explica Acácio Ribeiro Gomes Tomás do Instituto de Pesca de Santos. Os dados costumam ser coletados a partir de flagrantes ou em sigilo entre pesquisadores e pescadores.

“Em São Francisco do Sul, Santa Catarina, voluntários de ONGs fazem ações na praia para explicar bycacht”

Quem captura um golfinho, por exemplo, mesmo sem querer, fica sujeito a ser preso por crime ambiental. “Saber a real situação ajudaria a elaborar um modelo pesqueiro sustentável, equilibrado”, complementa ele.

O impacto desse processo não é apenas ambiental. Há perdas sociais e econômicas.
O pescador tem que ir cada vez mais longe para pescar cada vez menos.
“É preciso mudar a maneira de pescar, mas os profissionais são muito resistentes”, diz Carolina Bertozzi. Capacitar esses profissionais para trabalhar com turismo já deu certo em diversas partes do mundo como saída.

Priscila Dolphines, monitora de campo do Instituto de Pesca de Santos, defende que os pescadores artesanais não podem ser vistos como vilões. “Eles só pescam porque alguém compra”. É nessa hora que entra o consumidor.

Pesquisadores debatem solução para pesca acidental em Santos, SP.

A pesca sustenta 800 milhões de pessoas no mundo, ou seja, é uma atividade que não vai acabar tão cedo. A solução, segundo a bióloga Cíntia Miyaji, da consultoria Paiche , é contar com a conscientização de quem compra. Selos de certificação pelo mundo ajudam a identificar o pescado obtido de forma responsável.

“Estamos elaborando um guia para o consumidor brasileiro saber se aquele produto no mercado ou na peixaria foi tirado do mar com o menor impacto possível na natureza”, diz Miyaji. O guia deve estar disponível no início de 2019.