Área fechada é a garantia de preservação

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Foz dos rios mamucabas e ilhetas/ICMBio

APA Costa dos Corais 3/4
Ação na APA Costa dos Corais arregimenta antigos depredadores e recupera a biodiversidade

Sabe aquela máxima: “você colhe o que você planta”? Na vida é assim. Na agricultura também: começa com a compra ou o arrendamento da terra; em seguida vem o projeto, a preparação do solo para o plantio, a escolha das sementes, dos insumos, máquinas e equipamentos, a capacitação das pessoas, o acompanhamento do ciclo de crescimento da planta para só depois, colher!

Mas no ambiente marinho não existe todas essas etapas, apenas a última delas: a coleta. Quem faz essa relação é o secretário de Meio-Ambiente de Tamandaré-PE, Manoel Pedrosa, para mostrar a importância, ou, mais do que isso, a necessidade de se criar áreas fechadas na APA Costa dos Corais, a maior unidade de conservação federal marinha do Brasil, com mais de 440 mil hectares e cerca de 120 km de praia e mangues, que abrange 13 municípios, de Tamandaré-PE a Maceió-AL, incluindo as cidades de Barreiros, São José da Coroa Grande, Maragogi, Porto Calvo, Japaratinga, Porto de Pedras, São Miguel dos Milagres, Passo de Camaragibe, São Luís do Quitunde, Barra de Santo Antônio, Paripueira.

Foto: Rafael Munhoz

“Ninguém planta peixe! Então, a justificativa para a implantação da área fechada de Tamandaré é a gente manter o sistema de produção de biomassa e biodiversidade continuadamente. É fazer o plantio de peixe! Precisamos fazer a manutenção e a gestão de áreas fechadas, as áreas de recifais, pra que esses recifes possam dar continuidade a sua produção de biomassa”, explicou.

Pedrosa considera o principal desafio, a retirada do homem de cena: eliminar, ou pelo menos reduzir a atividade humana, o que faz com que o ambiente marinho se restabeleça, que a natureza volte a produzir.

Foto: Edson Acioli

“Quando a gente deixa de cuidar do quintal de casa, quando não há interferência humana, a grama e a natureza se restabelece. Em casa é preciso fazer a manutenção, mas no meio-ambiente marinho, ao contrário, a gente precisa preservar, deixar intocado o máximo possível para que a natureza se restabeleça e a biodiversidade volte a produzir.

A área preservada da Costa dos Corais é pioneira no Atlântico Sul para os recifes costeiros, que são os que estão próximos à costa. Existem outras áreas de produção em grande escala, como a do Parque dos Abrólhos, a Reserva biológica do Atol das Rocas e o Parque de Fernando de Noronha – mas estão distantes da costa, têm menor presença humana e são áreas exclusivas para produção de peixes oceânicos.

Foz do Rio Maragogi/ICMbio

A dificuldade de preservação de uma área como a Costa dos Corais é bem maior; a um quilômetro da praia, dá pra chegar nela à remo, ou até à nado.

Daí a importância da preservação ter o apoio das comunidades locais. Manoel Pedrosa é enfático: “Sem o apoio da comunidade a preservação não funciona de jeito nenhum. É preciso promover o emponderamento social. É preciso mostrar o grau de pertencimento, as pessoas têm que se sentirem donas daquilo. Caso contrário, não é possível fazer um trabalho de preservação”.

O trabalho feito pelas entidades patrocinadas pela Fundação Toyota do Brasil na APA Costa dos Corais mostra no entanto que é possível obter esse apoio. Você nota atitude assertiva das pessoas em todas as situações.

Foto: Rafael Munhoz

O caso dos pescadores é icônico: antigamente eles se revoltavam quando uma tartaruga, um peixe boi ou um golfinho se enroscava na rede e lhes causavam prejuízo. Hoje eles são agentes ambientais, protetores das mesmas espécies que matavam. Esse trabalho de conscientização (leia-se educação) é realizado de forma sistemática há mais de vinte anos na região.

A ação de ambientalistas junto à população transformou a relação das comunidades locais com o meio ambiente, e contribuiu para a melhoria das condições de vida e crescimento da economia local, incentivando especialmente o turismo de observação.

Ainda há pesca predatória aqui mesmo dentro da APA. “Existem os pescadores profissionais, que sabem exercer a atividade de forma responsável, eles cuidam do ambiente; mas a maioria ainda não faz isso. Usa artefatos destrutivos, jogam a rede em cima dos corais para a coleta de lagostinho e quando essa rede é retirada, sai quebrando todo o coral. A pesca do polvo também é destrutiva, é feita com o uso de um artefato químico: o pescador coloca água sanitária na loca do polvo para que ele saia dalí. Acontece que a água sanitária deteriora o ambiente, esteriliza a região, que fica sem vida durante pelo menos dois anos.

Mas a recuperação da vida marinha na região é notória, graças às ações dos agentes ambientais, uma vez que os recifes são o ambiente ideal de reprodução.

Peixe-boi, Rio Tatuamunha. Foto: Araquem Alcantara

A produção de lagostim aumentou três vezes apenas nos dois primeiros anos de fechamento da área. O mero é outra espécie protegida graças à área reservada. “O mero é um peixe gigante, protegido por lei, ele utiliza o ambiente recifal durante todo seu ciclo de vida, ele chega a 3,2 metros, atinge mais de 250kg e vive mais de 30 anos. Porém, a idade reprodutiva dele e a taxa de crescimento é muito lenta, ele só começa a se reproduzir após os sete anos, depois que já está com mais de 1 metro. Para os pescadores, peixe de um metro é gigante, é enorme, mas no caso do Mero é ainda adolescente, nunca se reproduziu. Com essa informação, o pescador muda a atitude.

Corais. Foto: Rafael Munhoz

Áreas fechadas
Uma das principais conquistas nesses 21 anos de atuação da APA Costa dos Corais foi a criação das Zonas de Preservação da Vida Marinha (ZPVM). A primeira área fechada fica em Tamandaré, Pernambuco, a 107 km Recife. Fechada há 18 anos, a área é coordenada pelo Instituto Recifes Costeiros (Ircos), entidade que enfrentou grande resistência, principalmente, por parte dos pescadores, já que a iniciativa restringe uma das principais atividades econômicas na área delimitada, a pesca.

“No início muitos pescadores reclamaram, mas hoje são favoráveis. Perceberam que com a moratória os peixes maiores e crustáceos aos poucos voltaram a colonizar as áreas e passaram a frequentar as regiões adjacentes à área fechada. A área funciona como um berçário marinho. Os peixes se reproduzem, crescem e depois saem para o alto mar”, explica Mauro Maida, conselheiro do Ircos, oceanógrafo e professor da Universidade Federal de Pernambuco. Na área fechada não é permitida nenhuma atividade humana com exceção de pesquisas científicas.