Água que passarinho não bebe. Nem gente.

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Depois de beber água da nascente, fomos de Aircross conhecer as cidades que mais sofrem com a poluição do Tietê

Em Primavera Silenciosa (1962), Rachel Caeson chamou a atenção do mundo para a contaminação do meio ambiente por pesticidas. O título do livro fazia referência ao sumiço dos pássaros em paisagens dos Estados Unidos, exterminados pelo DDT, que, por causa da denúncia, acabou sendo banido do país em 1972. No Brasil, só em 2009 o DDT foi completamente proibido.

A queda d´água que dá nome à cidade de Salto, a 100km a Oeste de São Paulo, viveu – e ainda vive – uma situação parecida, guardadas as proporções. Um sem número de contaminantes levados pelas águas do rio Tietê contribuíram para a quase exterminação do taperá, ave símbolo da cidade, que fazia seus ninhos nas encostas da cascata, desenhando cenários encantadores com suas revoadas nos finais de tarde.

A poluição trazida de São Paulo pelo rio silenciou o canto do tapera, acabou o salto dos dourados que subiam o rio na piracema e com a serenata que envolvia os casais apaixonados passeando pela ponte pêncil e namorando na ilha do Amor, hoje entregues quase ao abandono, devido ao mau cheiro e ao triste visual do lixo acumulado nos remansos. As então águas cristalinas da cachoeira não alimentam mais, nem homens, pássaros.

Salto, Pirapora de Bom Jesus e Santana do Parnaíba pagam o preço do descaso que a população do Baixo Tietê tem em relação ao lixo que jogam nas ruas e ao esgoto despejado diretamente do rio. As três cidades recebem as poluídas águas do rio que passam no centro de cada uma delas e têm que buscar abastecimento longe (Salto é abastecida com águas dos ribeirões Piraí e Buru) e foram visitadas nesta segunda etapa da Expedição Rio Tietê, que estamos fazendo a bordo do Citroën Aircross. A primeira etapa foi uma visita à nascente do Tietê, onde bebemos água pura do rio. Veja aqui.

Da mesma forma que muita gente dá a descarga e pensa que resolveu o problema, a cidade de São Paulo ignora as consequências da poluição que provoca, transformando o Tietê no condutor do lixo para cidades do interior, que acabam pagando pelo desprezo, desrespeito e incompetência dos gestores dos municípios da grande São Paulo.

Em artigo publicado pelo Portal ECOInforme (“O lixo não é só meu, ele é nosso”), o secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Maurício Brusadin, diz que nós nos acostumamos a colocar o lixo na porta e dar o assunto como encerrado.
“Uma das primeiras coisas que devemos pensar é que o lixo que eu produzo não traz consequências apenas para a minha vida. O problema do lixo não é individual, ele é de toda a sociedade. Da mesma forma, as cidades estão começando a entender e perceber que o lixo que ela produz não traz transtornos apenas para a sua população”.

Ele tem razão. Esperamos que, na condição de autoridade máxima do assunto no Estado, tome medidas no sentido de fazer os produtores de lixo arcarem com suas responsabilidades e não deixarem as populações, especialmente de Salto, Pirapora e Santana do Paraíba, pagar o preço pelo desleixo dos outros.

Ambientalista João Di Conti, secretário do meio ambiente da Prefeitura de Salto na gestão anterior

“O impacto que a poluição do rio provoca no turismo é enorme, disse à nossa reportagem o ambientalista João Di Conti, secretário do meio ambiente da Prefeitura de Salto na gestão anterior, ele que promoveu, em 2014, a primeira limpeza do rio no centro da cidade, com o recolhimento de 30 toneladas de detritos acumuladas nos remansos que se formam na região da cascata.

“Com a crise hídrica, as águas do rio baixaram e a poluição ficou ainda mais evidenciada. Em mutirão, retiramos tudo o que você imagina do rio, desde garrafas pet até cama, estofado, pneus etc. Mostramos que é possível fazer quando se tem vontade”.

Di Conti disse que a prefeitura planejava a construção de uma usina para gerar energia a partir do lixo, uma vez que o material recolhido não poderia ser aproveitado para reciclagem, pois estava totalmente contaminado.

Visualmente, o Tietê continua lindo. As paredes coloridas das casas que margeiam o rio em Pirapora refletem as cores na água, num visual que lembra aos pequenos vilarejos da Itália, no Mediterrâneo. A queda d´água em Salto oferece um visual esplendoroso, assim como o Tietê que corta o coração de cidade de Santana de Parnaíba.

Di Conti lamenta que Salto não possa aproveitar melhor sua condição de estância turística: além da cascata, a cidade tem áreas paradisíacas banhadas pelo Tietê, como Parque do Lago e o Parque da Rocha Moutonnée, mas a tristeza toma conta da gente quando o cheiro incomoda, a poluição atinge a mucosa, irrita os olhos, dificulta a respiração, provoca dor de cabeça. Como relaxar com esse fedor no nariz?

O jeito foi curtir só o visual, fechar os vidros do Aircross, ligar o ar condicionado e usufruir do conforto dentro do carro, sonhando com o dia em que o discurso sair do papel e nós tomarmos coragem de por um fim na destruição que provocamos ao ambiente em que vivemos.

Um passeio pela Rota dos Romeiros
Apesar disso, o passeio pela Estrada dos Romeiros, que margeia o Rio Tietê de Araçariguama a Cabreúva é uma gostosa aventura para ser feita num só dia, ida e volta. Saindo de São Paulo pela Rodovia Ditador Castello Branco, entre no km 25,3, logo após o posto da Polícia Rodoviária, na região de Alphaville. São 28 km até Santana do Parnaíba e mais 13 km até Pirapora, onde é possível fazer uma visita ao Portal da Cidade, comprar produtos da feira e visitar o comércio local, além de conhecer o Santuário do Bom Jesus de Pirapora, na praça da Matriz.

De Pirapora a Cabreúva, cuidado com os ciclistas. Nos fins de semana eles lotam a estrada, pedalando em grupos, na mesma pista em que rodam os carros, já que não há acostamento.

O cuidado com os ciclistas e o traçado na estrada, com suas curvas fechadas e constantes, recomenda velocidades baixas o tempo todo, mas ainda assim foi uma boa experiência ao volante do Aircross, quando pudemos avaliar a sua suspensão e o bom comportamento do carro em curvas.

Alambique Rainha da Praia

Já chegando em Cabreúva, vale uma visita ao alambique Rainha da Praia, o último dos alambiques de uma região que foi grande produtora de cachaça artesanal. A Estrada dos Romeiros era uma verdadeira rota da cachaça, mas os 38 alambiques foram fechando e o Rainha ficou sozinho para contar a história. Além da cachaça – versões envelhecidas na amburana e na cabreúva – o alambiqueiro Jair Sachi oferece grande variedade de doces, compotas, licores e rapaduras, além de um bom peixe frito e comida caseira.

Roteiro dos Bandeirantes
O Roteiro dos Bandeirantes é um circuito de cerca de 180 quilômetros, passando por sete cidades:

Araçariguama: era apenas um ponto de passagem para os bandeirantes que seguiam em direção à Itu e Jundiaí.

Santana do Parnaíba: tem eventos culturais, alambiques, festas populares – dramatização da Paixão de Cristo.

Pirapora do Bom Jesus: destino de romeiros, perdendo apenas, em número de visitantes, para Aparecida. Em 1725 foi encontrada a imagem do Bom Jesus, padroeiro da cidade, apoiada numa pedra do Rio Tietê. Hoje a estátua está abrigada dentro da Igreja da cidade, aberta para visitação pública.

Cabreúva: fundada por um fazendeiro de cana-de-açúcar que destinou sua produção para a fabricação de aguardente. Teve muitos engenhos artesanais e era conhecida como Terra da Pinga.

Salto
Itu
Porto Feliz
Tietê

História
Os sertanistas, que foram chamados “bandeirantes”, abriam caminhos desbravando o interior em busca de pedras preciosas e conquista de novas terras, contando para isso com a ajuda involuntária dos índios.

É dos bandeirantes o mérito da expansão do território brasileiro além do Tratado das Tordesilhas, conquistando parte da região Centro-Oeste, quebrando o acordo da Coroa Portuguesa com a Espanha e dando ao Brasil a forma que tem hoje. É também dos bandeirantes a responsabilidade pelos impactos desastrosos sobre as tribos indígenas da região, dizimadas pelas doenças levadas pelo homem branco, pela escravidão, pela guerra e pelo controle cultural.

Os primeiros bandeirantes eram grupos formados por brancos, caboclos e índios; eles não eram senhores de terra e não podiam comprar escravos negros, daí a “necessidade” de usar o índio como escravo, ele que conhecia a região inóspita.

Portanto, mais do que a ampliação do território colonial brasileiro, os bandeirantes foram responsáveis pela escravidão indígena, o combate aos quilombos e a descoberta das minas de ouro, esmeraldas e diamantes. E nas suas andanças formavam pequenos povoados ao longo do rio Tietê, que em seguida foram transformados em cidades ao longo do rio em direção à foz.

Os bandeirantes foram despertados pelas histórias sobre minas de ouro e prata contadas pelos índios e esperavam encontrar jazidas como às exploradas por Francisco Pizarro, que conquistou o Império Inca e saqueou as minas de ouro e prata, especialmente em Potosi, hoje território boliviano, levando toneladas de minério para a Coroa Espanhola. Em “Veias Abertas da América Latina” Eduardo Galeano conta com maestria a história do saque de ouro e prata no continente pelos espanhois.

A visita às cidades do Médio Tietê é um daqueles passeios que você pode fazer com a família em apenas um dia, ou num fim de semana, aproveitando a boa estrutura hoteleira e gastronômica da região, que foi palco de grandes eventos da nossa História.

A bordo do Citroën Aircross, visitamos a região e não gastamos um tanque de combustível.

Vamos encerrar a expedição pelo Tietê com uma visita à foz do mais importante rio paulista, no Paranazão, divisa com o estado do Mato Grosso.