A contribuição do cacau para a restauração de áreas degradadas

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Produção de cacau_divulgação_Secom ES

O professor João Mangabeira (*) avalia que a cultura protege a floresta e pode gerar superávit de 100 mil toneladas de cacau em cinco anos

Como restaurar áreas degradadas de forma racional e sustentável, principalmente em áreas de reserva legal, na Amazônia Brasileira? Este é o primeiro de uma série de artigos que pretendem evidenciar que a implementação do plantio de cacau em sistemas agroflorestais pode contribuir de modo significativo para que tal objetivo seja atingido.

Nativo do bioma amazônico, o cacau pode ser cultivado em sistema agroflorestal, mas qual seu potencial como restaurador de áreas degradadas? Pode-se usar o cultivo de cacau para recomposição florestal em áreas de reserva legal? Pode-se considerar esta cultura em sistema agroflorestal como sustentável? Existirá demanda de cacau para incentivo desta cultura na Amazônia? Seria o fomento a esse cultivo em sistema agroflorestal na Amazônia um meio de criar uma demanda por amêndoas de cacau no Brasil?

A comprovação da sustentabilidade deste tipo de cultura pode ser observada, do ponto de vista ambiental, na Mata Atlântica, onde o cultivo de cacau convive com a floresta há séculos, por meio do sistema “cabruca”, e protege um dos maiores remanescentes deste bioma no país. De acordo com a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau – AIPC, a produção de cacau está presente em mais de 66 mil propriedades rurais no Brasil. Essas propriedades, porém, não geram uma produção suficiente para suprir a demanda por chocolates no Brasil. Frente às projeções de escassez da oferta de matéria-prima para produção de chocolates e seus derivados, as entidades públicas e privadas mobilizam-se para aumentar a oferta de produtos de cacau no Brasil (Revista Agroanalysis – FGV-Vol. 37 Número 05, maio 2017).

Durante décadas, fomos os maiores produtores e exportadores de cacau do mundo. Nos últimos 30 anos, caímos para sexta posição, com menos de 4% da produção mundial. Hoje, dependemos das importações de amêndoas de cacau, principalmente de países africanos, para atender à produção interna e externa de chocolates e derivados, uma vez que somos grandes exportadores de produtos achocolatados.

A demanda mundial de cacau e derivados cresce 2% ao ano. Precisamos ter em mente que somos o único país produtor de cacau com parque processador das amêndoas que é fabricante e consumidor de chocolate em grande quantidade. Além disso, temos todos os elos da cadeia de produção. Assim, para suprirmos nossa demanda e ficarmos independentes das importações de amêndoas de cacau da África e para atendermos o mercado externo em expansão, precisamos, urgentemente, aumentar nossa produção e a produtividade de cacau, principalmente na Amazônia.

Nossa capacidade industrial instalada atualmente é de 275 mil toneladas/ano. As previsões do AIPC em 2017, ainda não contabilizadas, indicam 230 mil toneladas recebidas pela indústria moageira, resultando em um déficit de 45 mil toneladas (Revista Agroanalysis – FGV-Vol. 37 Número 09, setembro 2017). O incentivo da produção em áreas degradas e de reserva legal na Amazônia resolveria não só nosso déficit: geraríamos superávit de mais de 100 mil toneladas de amêndoas de cacau, esperadas para os próximos 5 anos, de acordo com dados da AIPC. Além disso, os sistemas de cultivo agroflorestal garantem alta geração de renda (aspecto econômico), muitos empregos (aspecto social) e preservação, principalmente em áreas degradadas de reserva legal (aspecto ambiental), o que vem a constituir o tripé da sustentabilidade.

Um estudo em 2016 da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), intitulado “The Productivity-Inclusiveness Nexus”, demonstra como a desigualdade social condena indivíduos com menor acesso a oportunidades à baixa produtividade, a empregos precários ou à informalidade. No Brasil, a cadeia de valor de cacau e chocolate possui o potencial de contribuir para a mudança deste cenário. Seu desenvolvimento pode ajudar a reduzir as emissões de gases do efeito estufa e, ao mesmo tempo, gerar inclusão social. A produção em pequena escala, realizada a partir da agricultura familiar, desempenha papel fundamental no volume colhido e na provisão de serviços ecossistêmicos, como a captura de carbono. Assim, a cadeia de cacau pode ajudar o Brasil a cumprir o compromisso estabelecido pela 21ª Conferência do Clima (COP-21) de redução absoluta de emissões de gases do efeito estufa e restauração florestal (Revista Agroanalysis – FGV-Vol. 37 Número 09, setembro 2017).

Existem ainda muitos desafios a serem superados. A cacauicultura ainda carece de infraestrutura básica, como acesso a insumos e assistência técnica. Podemos aumentar a produtividade média de 300 kg/ha nacional para mais de 1.500 kg/ha, com alto potencial de geração de emprego e renda. Ou seja, há elementos fundamentais que devem funcionar ativamente: uma assistência técnica contínua e uma capacitação integrada que englobem manejo produtivo, gestão territorial ordenada e sustentável da propriedade, gestão financeira dos produtores, comercialização e adequação social. Tais elementos não devem limitar-se a promover uma produção mais eficiente, mas gerar inovações, cooperativismo, empreendedorismo e responsabilidade com o desenvolvimento local. Portanto, o cultivo de cacau em sistema agroflorestal será um vetor de inclusão social e de uma economia de baixo carbono, principalmente na Região Amazônica, promovendo a capacitação, a formalização da economia e o desenvolvimento local, sem desmatamento.

(*) João Mangabeira, doutor em Economia Ecológica e pesquisador da Embrapa, é colaborador do Portal ECOinforme